Há um tipo de pessoa que parece ter nascido com um certificado de superioridade moral colado à testa. São aqueles que falam sempre num tom de quem está num patamar acima — mais limpos, mais lúcidos, mais cultos, mais éticos. Julgam-se faróis da civilização em pleno nevoeiro social. Não erram, não mentem, não falham, e se falham, é com uma elegância tal que até o erro lhes parece virtude. São os "puros", os que lavam as mãos com água benta e apontam o dedo com a certeza absoluta de que pertencem à elite dos iluminados.
Mas basta coçar um pouco o verniz para se descobrir o bolor por baixo. Os que tanto alardeiam a sua honestidade são, por vezes, os primeiros a desviar o olhar quando lhes convém. Os que discursam sobre empatia são os mesmos que se riem pelas costas. Os que pregam coerência vivem de contradições cuidadosamente escondidas sob frases feitas. São exímios em fazer-se parecer. Ser? Já é outra conversa.
Há uma vaidade na moralidade exibida que beira o teatro. Fazem-se de limpos não porque o sejam, mas porque sabem que isso impressiona. Fazem-se de inteligentes, não porque pensem mais, mas porque aprenderam a arte de falar difícil, de citar livros que nunca leram e autores que mal entendem. A inteligência, para estes, não é um caminho de descoberta, mas uma arma de distinção. Não partilham o saber — exibem-no como quem exibe um casaco de marca.
Estas pessoas são, na prática, perigosas. Porque enganam. Porque fazem os outros duvidar de si mesmos, comparando-se com uma imagem cuidadosamente polida, construída para humilhar sem parecer. Porque fazem parecer que há uma forma certa e superior de ser, quando na verdade vivem tão cheios de inseguranças e incoerências como qualquer outro ser humano.
A verdadeira sabedoria não precisa de palco. A verdadeira limpeza não precisa de confetis. Quem é realmente honesto, não precisa de o gritar. Quem é genuinamente inteligente, ouve mais do que fala. E quem é mesmo bom, não precisa de se pôr em bicos de pés para parecer melhor que os outros — porque sabe que a verdadeira grandeza é silenciosa.

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