segunda-feira, 30 de junho de 2025

Com Tudo o que somos

Dizem que o amor verdadeiro é aquele que vê o melhor de nós, mesmo quando nem nós o conseguimos ver. E talvez por isso estejas tu aqui, firme, paciente e com um humor estranho que me salva mais vezes do que consegues imaginar. Não foste atrás de um corpo de capa de revista (e ainda bem, porque este corpo é mais de edição especial limitada), foste atrás de uma alma — desta alma — com todas as suas curvas emocionais, com o cérebro às vezes a fazer faísca e o corpo que, convenhamos, nem sempre colabora.

És daqueles que muitos não percebem. Não sabem ver para lá do silêncio, do cansaço, ou do jeito torto com que às vezes a vida te empurra. Mas eu vejo. Eu sou a testemunha número um da bondade que te pulsa no peito, daquela preocupação que tens até quando finges que não tens, daquele gesto atento no meio do caos dos dias.

És um companheiro que compensa, que acolhe, que arruma quando eu não posso, que enfrenta quando eu não consigo. Que segura as pontas quando todas as linhas da minha saúde parecem rebentar ao mesmo tempo. És um pai que ama com presença, que se importa, que mete os filhos à frente mesmo quando o mundo inteiro grita para olharmos só para nós.

Vivemos quedas. Vivemos pausas obrigadas. Vimos sonhos a serem encostados à prateleira da vida, com a esperança de um “um dia, talvez”. Houve noites sem chão, dias sem cor, e momentos em que parecia que só restava cansaço. Mas sempre fomos nós. Nunca de braços cruzados A construir, a tentar, a fazer planos mesmo quando o presente parecia rir-se deles.

Não és perfeito — e ainda bem, senão esta casa ia parecer um convento e eu não teria com quem ralhar de vez em quando. Mas és a pessoa certa. A minha pessoa. Aquele que nunca me fez sentir a menos, mesmo quando o meu corpo insiste em me lembrar que há limites. Aquele que não me vê com pena, mas com amor. Com respeito. Com humor. Com uma força que me alimenta a esperança.

Não é fácil. Não foi fácil. Mas contigo, nunca foi solitário.

E por tudo isso, hoje e sempre: obrigada. ❤️

domingo, 29 de junho de 2025

O Vazio que pede gente


A dependência emocional não é amor, embora muitas vezes se disfarce dele. Não é entrega, nem devoção, nem carinho. É uma prisão feita de necessidade, medo e ausência de identidade. É o apego excessivo a alguém, ao ponto de se perder de si próprio. A psicologia define esta condição como uma ligação afetiva desproporcional, em que o bem-estar emocional depende quase inteiramente da presença, atenção ou validação do outro. Quem sofre de dependência emocional não ama verdadeiramente o outro; ama a segurança ilusória que o outro representa, a sensação momentânea de não estar só, a falsa paz de saber que alguém ainda está ali. Esta necessidade vem muitas vezes de feridas profundas. Há quem acredite que ela nasce apenas da carência, da rejeição ou do abandono na infância. Mas também pode surgir do excesso. Crescer num ambiente onde não se conheceu o “não”, onde cada desejo era satisfeito antes de se tornar necessidade, onde se foi permanentemente protegido da dor e da frustração, também pode gerar adultos incapazes de lidar com a ausência, com o silêncio, com o desapontamento. Seja por carência ou por excesso, o resultado é o mesmo: uma identidade frágil, dependente do reflexo que vê nos olhos dos outros.

As pessoas emocionalmente dependentes vivem num constante estado de ansiedade relacional. Têm medo de serem abandonadas, mesmo quando a relação que vivem é destrutiva. Aceitam pouco, mas continuam a insistir. Suportam desrespeito, negligência e até abuso, porque o maior medo não é o sofrimento: é a solidão. Anulam-se para agradar, moldam-se para não perder, silenciam-se para manter o outro por perto. E quando o outro se afasta, mesmo que por instantes, desabam. A ausência é vivida como catástrofe. A crítica, como rejeição. A distância, como sinal de desamor. Este padrão torna-se viciante. Há momentos de afeto e atenção que funcionam como pequenas doses de alívio. Depois, vem a abstinência: o afastamento, o silêncio, a insegurança. O cérebro associa esses ciclos ao amor, porque confundiu intensidade com ligação. E assim se repete o enredo: a dor, a espera, o alívio breve, e de novo a dor.

Os sinais da dependência emocional não se revelam apenas nas relações amorosas. São igualmente evidentes em ligações familiares, especialmente entre filhos e pais, ou entre irmãos, onde um deles ocupa o papel de figura central e o outro se molda a esse centro para se sentir visto. Há filhos adultos que continuam a viver à sombra da aprovação dos pais, mesmo quando estes já não exercem qualquer autoridade. Há irmãos que se tornam invisíveis nas suas vontades, contanto que não sejam excluídos da dinâmica familiar. E há mães e pais que, por terem criado filhos emocionalmente dependentes, sentem que têm um lugar garantido enquanto os filhos os virem como referência — mas esse lugar é construído mais pelo medo da rejeição do que pelo amor livre. Em todos estes contextos, o padrão repete-se: o valor próprio mede-se pela resposta do outro, pela aceitação, pela atenção recebida. E, sobretudo, pela adulação.

A dependência emocional também se revela de forma muito clara na necessidade constante de reconhecimento. Não basta estar com o outro, é preciso sentir-se necessário, valorizado, elogiado. Quando não há elogio, instala-se a dúvida. Quando não há validação, nasce a frustração. Quando o outro não retribui com entusiasmo, sente-se desamor. Quem vive neste registo não suporta a indiferença. A ausência de adulação é sentida como ataque. A neutralidade do outro parece rejeição. E isto cria relações desequilibradas, onde se exige do outro um papel constante de espelho positivo, incapaz de falhar, incapaz de se desligar. Nestes casos, o amor transforma-se numa exigência de reafirmação permanente. E quando essa reafirmação falha, surge a mágoa, a raiva ou o colapso emocional.

É por isso que a dependência emocional não se limita ao sofrimento da ausência. Ela causa também ressentimento quando não há retorno proporcional à entrega. A pessoa dependente sente que dá tudo e não recebe o mesmo. Mas a verdade é que dá esperando sempre algo: reconhecimento, amor, garantia de permanência. E quando isso não acontece, sente-se traída, mesmo que o outro não tenha feito mais do que existir de forma autónoma. A dependência transforma o outro numa espécie de espelho emocional: se me olhas com carinho, existo; se me ignoras, desapareço.

Libertar-se da dependência emocional é um processo árduo, mas possível. Começa com o reconhecimento. Perceber que aquilo que parecia amor é, muitas vezes, medo disfarçado. Que aquilo que se faz em nome da ligação, é por vezes um abandono de si. Que cuidar do outro não deve significar deixar de se cuidar. A psicoterapia tem aqui um papel essencial. Abre espaço para a reconstrução da identidade, ajuda a resgatar a autoestima, e oferece ferramentas para lidar com o vazio sem o tapar com presença alheia. Ensina que estar só não é o mesmo que estar abandonado, e que o silêncio pode ser cura, não castigo.

Não se trata de deixar de amar, mas de aprender a amar melhor — com liberdade, com presença, com respeito mútuo. Amar sem se fundir, sem se perder. Escolher o outro sem precisar dele como quem precisa de ar. O verdadeiro amor nasce quando se pode estar inteiro na presença do outro, e não fragmentado. Quando se ama com consciência, e não por necessidade. Quando a relação é partilha, e não dependência. Quando se permanece, não porque se teme a perda, mas porque se aprecia a companhia. E aí, finalmente, o amor deixa de ser prisão e torna-se casa.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Descalça de Imagens

Em sociedades moldadas por normas invisíveis e expectativas herdadas, ser autêntico não é apenas um traço de personalidade — é, muitas vezes, um acto de coragem. Vivemos num mundo que ensina a parecer antes de ser, onde se valoriza mais o verniz do que a madeira que lhe está por baixo, mais a fachada do que a fundação. E é por isso que a frase “a melhor parte de ser autêntico é não ter uma imagem a manter” ganha uma força tão grande: porque desmonta o teatro subtil que todos, em maior ou menor grau, fomos educados a representar.

Desde há séculos que o ser humano se reveste de máscaras — nas festas, nas procissões, nos rituais sociais. Em Portugal, os códigos de conduta são silenciosos mas ferozes. Em muitas aldeias, ainda hoje, o maior medo não é errar, mas ser falado. A reputação é uma moeda poderosa, e o “que vão dizer” pesa mais do que a verdade vivida. Ser autêntico, nestes contextos, é quase um insulto à convenção. É recusar participar no jogo das aparências. E isso, para muitos, é intolerável.

Um exemplo emblemático deste teatro social são as flores nos cemitérios. Há algumas décadas, levar flores era um gesto simples de respeito, um sinal silencioso de memória. Hoje, em muitas localidades, tornou-se uma espécie de campeonato invisível — quem leva mais, quem leva as mais bonitas, as mais caras, as mais vistosas. Já não se trata apenas de honrar os mortos, mas de exibir dedicação, de garantir que os olhos dos outros vejam o quanto se “cuida” daquele túmulo. E se, por acaso, alguém não leva flores numa semana, há sempre quem repare, quem comente, quem critique. A verdade dos afectos ficou algures soterrada sob crisântemos de vaidade.

Este tipo de comportamento ilustra perfeitamente o que significa viver em função de uma imagem. Não se age por sentir, mas por parecer. Não se oferece algo ao outro, mas ao olhar alheio. E é precisamente contra isso que a autenticidade se levanta.

Ser autêntico não é viver sem limites nem deixar de ter noção social. É, isso sim, viver em coerência interna. É deixar de investir energia a tentar manter uma personagem. É poder dizer “não sei”, “não estou bem”, “isto não é para mim” sem sentir que se está a falhar um papel. É viver com liberdade de expressão emocional, com verdade afectiva, com humanidade visível.

Claro que isso tem um preço. Há quem não saiba lidar com quem não joga o jogo. Há quem prefira a hipocrisia confortável à verdade incómoda. Mas há também, do outro lado, um prémio imenso: a paz de espírito. Quando se é autêntico, já não se está a fazer contabilidade emocional para agradar a todos. Já não se está preso ao medo de desiludir, de desagradar, de “não estar à altura”.

Na vida quotidiana, isso nota-se em pequenas coisas: a mulher que recusa sorrir para ser aceite, o homem que chora sem se envergonhar, a mãe que admite que está exausta, o jovem que escolhe um caminho diferente sem pedir desculpa por isso. Cada um desses actos, por mais simples que pareçam, é uma declaração silenciosa: “não estou aqui para representar ninguém — estou aqui para ser.”

E é curioso como, no final da vida, tantos idosos chegam finalmente a essa conclusão. Já não têm imagem a manter. Já foram elogiados, criticados, mal falados, esquecidos e relembrados. E ali, sentados num banco à sombra ou encostados à parede da casa, dizem as coisas como são. Sem filtros. Sem adornos. Sem flores a mais. Apenas verdade.

É isso que faz da autenticidade uma forma de descanso. Um lugar onde se pode finalmente respirar, viver com leveza, sentir sem culpa. Porque, quando deixamos de tentar manter uma imagem, começamos — finalmente — a viver com verdade.

terça-feira, 24 de junho de 2025

O Tamanho da Alma

Há uma força silenciosa que vive dentro de nós. Uma força que ninguém vê, mas que grita em cada escolha, em cada passo que damos, mesmo com medo. Uma força que se revela sobretudo quando o mundo – ou aqueles que nele habitam – tenta encolher-nos. Reduzir-nos. Apagar-nos.

"Que se continue gigante diante de coisas que nos tentam fazer pequenos."

Não é apenas um desejo bonito, é uma missão de vida. É o grito interior de quem já foi diminuído, silenciado, encostado a um canto por palavras duras, olhares julgadores ou ausências ruidosas. É o eco de quem sabe o que custa lutar todos os dias contra o invisível – seja a insegurança, o cansaço, o medo, ou o peso das expectativas alheias.

Há muitas formas de tentarem fazer-nos pequenos.

Quando nos dizem que estamos a exagerar, quando nos mandam calar, quando ignoram o nosso valor. Quando desvalorizam os nossos sonhos, as nossas dores, os nossos limites. Quando tentam convencer-nos de que não somos suficientes, de que não temos o que é preciso, de que não vamos chegar lá.

Mas ser gigante não é gritar mais alto.

Ser gigante é não deixar que nos desfaçam por dentro, mesmo quando nos rasgam por fora.

É levantar a cabeça quando tudo em nós quer desabar.

É continuar com dignidade, mesmo quando nos querem de joelhos.

É difícil, sim. Há dias em que nos sentimos tão pequenos que até as próprias mãos parecem longe demais do peito para conseguirmos abraçar-nos. Há momentos em que o mundo parece grande demais para nós e o silêncio, pesado demais para suportar. Mas é aí que se cresce. É aí que se mostra o verdadeiro tamanho do nosso carácter.

Porque a grandeza não está na ausência de quedas.

Está na forma como nos levantamos.

Está em continuar de pé, com a alma suja de poeira, mas os olhos ainda acesos.

Por isso, que se continue gigante.

Mesmo quando o mundo nos quer pequenos.

Mesmo quando nos querem frágeis, submissos, conformados.

Que sejamos gigantes na forma como não aceitamos menos do que merecemos.

Gigantes na maneira como defendemos o nosso espaço, os nossos sentimentos, os nossos sonhos.

Gigantes na capacidade de olhar para dentro e encontrar ali tudo o que o mundo tenta esconder-nos: força, valor, dignidade.

Não te encolhas para caber no conforto dos outros.

Não te apagues para iluminar caminhos alheios.

Não te diminuas para não incomodar.

Ser gigante é, muitas vezes, um acto de resistência.

E resistir, neste mundo que tanto insiste em apagar brilhos e silenciar verdades, já é um milagre

sábado, 21 de junho de 2025

O Peso Que Não É Meu


Ser obesa não dói. O que dói é tudo o que os outros acham que sabem sobre mim por causa do meu corpo. O que dói é o olhar que se desvia, o riso abafado, a cadeira que não chega, a médica que me trata como um diagnóstico ambulante: gordura. A vida numa sociedade obcecada com o magro é uma maratona onde as pessoas gordas nem sequer são chamadas à linha de partida — e, quando o são, é para que sirvam de exemplo do que “não se deve ser”.

Mas o peso que mais dói nem sequer é físico. É psicológico. É social. É aquele que me colocam em cima todos os dias, mesmo sem palavras.

Há a discriminação óbvia — aquela que te fecha portas no trabalho porque “não tens o perfil”, como se competência tivesse um perímetro abdominal máximo. Entrevistas onde nunca se chega à segunda fase. De promoções que são para “quem representa melhor a empresa”. De colegas que fazem piadas quando sais da sala. De cargos onde esperam alguém que “se cuide”, mas ninguém cuida de perceber o que isso quer dizer.

E depois há a exclusão silenciosa, ainda mais corrosiva. Não és convidada para o grupo de amigas que vai à praia porque “não tens bem o espírito”. Ficas de fora da foto porque “não cabemos todas no enquadramento”. Não te chamam para certos planos porque “não vais gostar”, ou “aquilo não é para ti”, ou simplesmente… porque não. És a amiga que ouve, mas que raramente é incluída. A companhia útil, mas invisível.

E quando apareces, às vezes até notas o desconforto disfarçado. A vergonha silenciosa de quem anda contigo mas caminha três passos à frente. Aquela hesitação na apresentação: “Esta é a minha amiga... ela é muito engraçada!” Engraçada. Nunca bonita. Nunca “olhem para ela”. Nunca protagonista. Porque parece que um corpo grande só pode existir se compensar com simpatia, humor ou talento. Nunca por si só.

Ir às compras é um campo minado. Entras numa loja com esperança e sais com um nó na garganta. “Só temos até ao XL, mas talvez te sirva um casaco oversize da secção masculina”. Secção de tamanhos grandes? Um canto escuro ao fundo da loja, com padrões deprimentes, cortes sem forma e uma paleta de cores digna de uma fila de espera no centro de saúde. Porque o mundo não espera que sejas vaidosa. Espera que tentes desaparecer.

E tu tentas. Tentas tantas vezes.

Tentaste fazer dieta, tentaste fazer exercício, tentaste caber num molde onde simplesmente não encaixas. Tentaste ser discreta, ocupando menos espaço emocional do que o teu corpo já ocupa fisicamente. Tentaste ser prestável, útil, simpática, divertida — para que gostassem de ti apesar do teu corpo. E tentaste odiar-te o suficiente para que os outros não precisassem de o fazer. Mas nunca chega. Nunca chegou.

E, ao mesmo tempo, todos acham que podem opinar sobre ti. O teu corpo é assunto público. “Por que é que não operas?” “Tens um rosto tão bonito, era só perderes uns quilinhos.” “Estás a estragar a tua saúde.” Curiosamente, a preocupação nunca é com a tua saúde mental, com a tua solidão, com o teu cansaço. Só com aquilo que os olhos dos outros têm de suportar. Só com o incómodo estético de teres a ousadia de existir fora do padrão.

Mas a verdade é que não foi o meu corpo que me magoou. Foram os outros. Foram os olhares. As ausências. As palavras sussurradas. As piadas de mau gosto. A forma como o mundo se organiza para excluir os corpos gordos — desde as cadeiras nos restaurantes às amizades seletivas, dos provadores minúsculos aos amores impossíveis porque “não sou o teu tipo, mas és ótima pessoa”.

Ser obesa não me impede de viver. Mas impede-me de ser tratada como se a minha vida tivesse o mesmo valor que a de alguém magro.

E no meio disto tudo, o mais cruel é que somos ensinadas a culpar-nos. A achar que o problema somos nós. Que temos de mudar, que temos de fazer por merecer. Que temos de sofrer caladas até sermos dignas de um espaço. De amor. De respeito. De aceitação.

Mas talvez o mundo tenha mesmo é de mudar. De deixar de medir valor em quilos. De parar de infantilizar, de silenciar, de isolar quem não cabe nas expectativas alheias. De perceber que há mais beleza num corpo com história, do que numa norma vazia.

Porque não é o corpo que pesa.

É o preconceito que os outros nos colocam em cima dele.

E esse peso, garanto-te, não se perde com dieta.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Ainda Que Doa


Não mudes os teus valores por causa de teres tido más experiências. Não deixes que a dor te molde ao ponto de te tornar alguém que não reconheces. Parece um conselho simples, quase óbvio, mas quem já teve o coração partido, a confiança traída ou a dignidade posta à prova sabe o quão difícil é continuar a ser bom, justo e inteiro quando o mundo te responde com indiferença, crueldade ou injustiça.

A dor tem um estranho poder: ela não bate à porta, ela entra. E quando se instala, fá-lo com a autoridade de quem se acha no direito de redesenhar a tua maneira de ser, de pensar, de sentir. De repente, questionas tudo. Questionas se vale a pena seres honesto quando foste enganado. Se faz sentido seres leal quando foste traído. Se justifica seres bondoso quando foste pisado.

É um processo silencioso. Não se muda da noite para o dia. Mas um dia acordas e já não respondes às mensagens com a mesma ternura. Já não acreditas nas promessas, mesmo quando são sinceras. Já não tens paciência para o diálogo, porque aprendeste que falar nem sempre resolve. Já não esperas grande coisa de ninguém. E, sobretudo, já não confias — nem nos outros, nem em ti.

Mas essa mudança, ainda que pareça proteção, é perda. Uma perda invisível, que se disfarça de “maturidade”, de “crescimento”, de “inteligência emocional”. Dizemos a nós próprios que agora somos mais espertos, mais atentos, menos disponíveis. Mas o que somos, na verdade, é mais duros. Menos acessíveis. Menos luminosos.

Não confundas valores com ingenuidade. Ser verdadeiro não é ser tolo. Ser empático não é ser fraco. Ter princípios não é ser manipulável. Os teus valores são a tua espinha dorsal — sem eles, podes até continuar de pé, mas és só uma versão desfigurada de ti mesmo. Quando te despes daquilo que te definia, não ganhas força: perdes-te.

É claro que as más experiências deixam marcas. E é claro que precisamos aprender com elas. Ser bom não é permitir que nos usem. Ser justo não é ser passivo. Amar não é aceitar tudo. Mas o que nos protege verdadeiramente não é deixar de sentir — é aprender a colocar fronteiras sem abdicar da essência. É dizer “não” com firmeza, mas continuar a ser quem és quando dizes “sim”.

Não mudes os teus valores só porque o mundo é muitas vezes cruel. O mundo é grande, e nele cabem também pessoas boas, justas, sensíveis. Não mudes os teus valores por causa de quem te magoou — muda a tua proximidade com essas pessoas, muda a forma como te relacionas, muda o que permites. Mas não mudes o que te faz ser quem és.

Porque no fim, viver de forma coerente com os nossos valores é a única vitória que não nos podem tirar. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que, às vezes, pareça que não compensa. A paz de quem se manteve fiel a si mesmo vale mais do que qualquer vitória artificial conseguida à custa da alma.

Ainda que doa, não deixes que o pior do mundo apague o melhor de ti.

Ainda que doa, sê tu.

Ainda que doa, escolhe continuar inteiro.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Educação Positiva: A Geração dos Intocáveis


Chamam-lhe “educação positiva”. Uma pedagogia da compreensão, da escuta activa, do afeto incondicional. Uma revolução emocional disfarçada de método educativo, onde tudo se resolve com um tom de voz doce, uma validação emocional e um desenho de reforço positivo. O problema? Está a criar uma geração de intocáveis. Crianças que não ouvem “não”, que não enfrentam frustração, que não são contrariadas — e que, por isso mesmo, crescem a acreditar que o mundo tem a obrigação de se moldar ao seu umbigo.

A obsessão por evitar o trauma está a gerar uma nova forma de negligência: a emocional. A ideia de que tudo tem de ser explicado, negociado, compreendido, está a esvaziar a função parental do seu papel mais fundamental — educar. E educar é, muitas vezes, frustrar. É ser impopular. É ser o vilão da história durante algum tempo. É dizer “não”, é impor regras, é exigir comportamentos e assumir que a criança nem sempre vai gostar de ouvir o que precisa.

Mas hoje, muitos pais não querem educar — querem ser amigos. Querem a validação emocional dos filhos, querem ouvir “és o melhor pai do mundo”, “a minha mãe é fixe”, como se fossem colegas de recreio. Têm medo de perder o amor dos filhos e, por isso, evitam o conflito a todo o custo. E nessa fuga ao desconforto, trocam o respeito pela cumplicidade, a autoridade pela permissividade e os limites por uma eterna negociação emocional.

Pais que não impõem limites criam filhos que não conhecem fronteiras. E filhos sem fronteiras crescem a pensar que podem tudo — e que tudo lhes é devido.

Estamos a formar adultos com alergia à frustração.

Pessoas que não suportam ser contrariadas, que entram em colapso ao primeiro “não”, que se ofendem com facilidade e exigem que o mundo se adapte ao seu estado emocional. Pessoas que não sabem esperar, que não sabem ouvir críticas, que não toleram hierarquias, que acham que têm sempre razão porque, desde pequenos, nunca lhes foi dito o contrário.

E o mais irónico é isto:

Esta geração educada para “sentir” está cada vez mais ansiosa, insegura e instável.

Quanto mais validação damos, menos autoestima têm.

Quanto mais protegemos, menos aguentam.

Quanto mais evitamos traumas, mais frágeis se tornam.

Mas o mais preocupante ainda está por vir:

Que pais serão estas crianças amanhã?

Serão pais exaustos, porque nunca aprenderam a lidar com resistência.

Serão pais ausentes, porque nunca lhes foi exigido compromisso.

Serão pais permissivos, porque terão medo de repetir os erros que acham que sofreram.

Ou pior ainda: serão pais-espelho, incapazes de educar porque nunca foram educados.

Uma geração que nunca ouviu um “não” dificilmente saberá dizê-lo.

Uma geração que não foi contrariada não saberá como contrariar sem culpa.

E uma geração que não aprendeu a responsabilizar-se vai reproduzir o ciclo da imaturidade emocional.

A chamada educação positiva, na sua versão radical e desvirtuada, transformou-se num território onde os adultos são reféns das emoções dos filhos. Onde se pede desculpa por educar, onde se caminha em ovos para evitar birras, onde se aceita tudo em nome da liberdade de expressão da criança. Mas uma criança que manda em casa vai achar que pode mandar no mundo. E quando o mundo não obedecer — porque nunca obedece — vai colapsar.

Educar com afeto não é ceder.

Ouvir não é obedecer.

Validar emoções não é aceitar comportamentos.

Se queremos adultos empáticos, resilientes e conscientes, temos de começar por ser pais corajosos, presentes, coerentes. Pais que não têm medo de ser impopulares, que educam com amor, mas também com firmeza. Porque o verdadeiro trauma não é ouvir um “não” na infância. O verdadeiro trauma é crescer sem estrutura emocional, sem referências, sem limites — e descobrir, já tarde demais, que o mundo não tem paciência para adultos que se comportam como crianças.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Nem no nosso lugar...


Vivemos numa era de grande empatia teórica. Teórica, sublinho. Fala-se muito sobre “sair da bolha”, “calçar os sapatos do outro”, “ter mais compaixão”. Multiplicam-se os slogans, os posts inspiracionais, as frases partilhadas com fundos florais e hashtags. Mas na prática? Na prática, a maior parte das pessoas não consegue sequer estar no seu próprio lugar. Como é que se há-de colocar no lugar de alguém?

A verdade é que para nos colocarmos no lugar do outro, primeiro é preciso sabermos onde nós estamos. Quem somos. O que sentimos. O que nos move. O que nos dói. O que carregamos. E isso exige um nível de consciência que assusta. Porque é muito mais fácil julgar o outro do que olhar para dentro. Muito mais fácil apontar o dedo do que assumir o desconforto de perceber que, afinal, também erramos, também fugimos, também nos perdemos de nós mesmos.

Quantas pessoas conheces que vivem em permanente conflito com o seu reflexo? Gente que anda por aí a pedir aos outros que lhes validem as emoções que nem sabem nomear. Pessoas que vivem papéis que não escolheram, a representar vidas que não sentem. Que se definem pela profissão, pela relação que têm, pelo carro que conduzem ou pela roupa que vestem — e que, se lhes tirassem isso tudo, não saberiam quem são.

É aqui que está o problema: quem não se conhece, não se entende. E quem não se entende, não se tolera. E quem não se tolera, está constantemente à procura de alguém para acusar — porque é mais cómodo externalizar o caos do que assumir que ele mora dentro de si.

Fala-se muito de empatia como se fosse um dom. Não é. A empatia é um exercício de humildade e presença. E para que ela aconteça, é preciso primeiro fazer um outro exercício bem mais difícil: o da autoacolhimento. É preciso conseguir estar connosco, com as nossas falhas, as nossas feridas, as nossas verdades inconvenientes. Porque só quem sabe o peso que carrega, é capaz de respeitar o peso que o outro traz às costas.

Mas isso dá trabalho. Dá muito trabalho. Exige silêncio. Auto-observação. E, pior do que tudo, exige deixar de controlar a narrativa. Exige parar de justificar tudo com o comportamento dos outros e assumir que, muitas vezes, somos nós os arquitectos da nossa própria prisão.

Talvez por isso haja tanto ruído nas redes sociais. Tanta opinião. Tanta indignação. Tanta gente a gritar que está do lado certo da história, mesmo quando não entende a história que vive em si. Porque gritar é mais fácil do que escutar. Julgar é mais fácil do que compreender. E fugir para o telemóvel é infinitamente mais fácil do que encarar o espelho.

Colocar-se no lugar do outro só é possível quando já se fez o percurso duro de voltar ao seu próprio lugar. E quantas pessoas conheces que realmente já voltaram? Que já limparam a casa emocional onde vivem? Que fizeram as pazes com a infância, com os traumas, com os silêncios que doem e com os sonhos que enterraram?

Não se trata de virar santos, nem de desculpar tudo e todos. Mas sim de admitir que, se nem sempre conseguimos ser justos connosco, como esperar que o sejamos com o outro? Se nos negamos tantas vezes o descanso, a escuta, o perdão, como vamos oferecer isso aos demais?

Talvez a questão nem seja “colocar-se no lugar do outro”. Talvez o mais honesto seja perguntar: já consegues ocupar o teu?

Porque quem está inteiro em si, já não precisa provar nada a ninguém. E é aí, só aí, que a empatia acontece: quando já não se julga como defesa, mas se compreende como escolha.. 

terça-feira, 17 de junho de 2025

O Vírus Chamava-se Ódio


Durante anos fomos sendo lentamente empurrados para as margens uns dos outros. Mas foi com a chegada da pandemia de COVID-19 que essa separação ganhou velocidade, intensidade e uma nova forma: o ódio. Não o ódio declarado, com bandeira e grito de guerra. Nada disso. Um ódio subtil, mas constante. Um veneno de dose diária, disfarçado de opinião forte, de preocupação legítima, de defesa da liberdade. Um ódio que cresceu como erva daninha entre o medo, a desinformação e o isolamento.

Em março de 2020, o mundo parou. Literalmente. Fechámos portas, janelas, fronteiras e abraços. E começámos a olhar para o outro como ameaça. O outro era o potencial contagiado. O irresponsável que não lavava as mãos. O assintomático que podia estar a matar os nossos pais sem saber. A base da convivência humana — a confiança — desfez-se, e em seu lugar brotou a suspeita. E da suspeita ao julgamento, e do julgamento ao ódio, foi um passo curto e silencioso.

Ao princípio, ainda havia compaixão. Aplausos às janelas, cestos de compras para os vizinhos mais velhos, palavras de ânimo nas redes sociais. Mas à medida que o tempo passava e a fadiga pandémica se instalava, o discurso mudava. Os que não queriam ser vacinados tornaram-se os vilões. Os que se vacinaram passaram a ser os manipulados. Cada um com a sua verdade inegociável, cada um agarrado à sua trincheira.

A pandemia não criou o ódio, mas revelou a sua infraestrutura. Estava cá tudo. O ressentimento de classe, o preconceito racial, a polarização política, a raiva mal digerida contra o sistema, contra os ricos, contra os pobres, contra quem pensa diferente. O vírus apenas acendeu a luz de presença que mostrou o que cada um andava a esconder: o desconforto com o outro.

As redes sociais, já de si saturadas de ruído, tornaram-se ainda mais hostis. Criaram-se castas digitais: os do "acorda, povo!" contra os do "sigam a ciência!". Os que denunciavam qualquer medida como tirania contra os que exigiam regras mais duras para travar o contágio. De repente, a empatia passou a ser sinal de fraqueza. O diálogo tornou-se obsoleto. E o contraditório, uma ofensa pessoal.

A par do vírus, viralizou-se também a arrogância. A pandemia fabricou peritos em tempo recorde: virologistas de sofá, constitucionalistas de Facebook, epidemiologistas do WhatsApp. Pessoas sem qualquer formação académica na matéria, mas com uma convicção inabalável — mais uma vez, confundida com verdade.

Pior: começámos a odiar quem não estava a sofrer como nós. Quem conseguia trabalhar remotamente enquanto outros perdiam o emprego. Quem dizia que até estava a gostar da pausa quando outros enfrentavam a depressão. Quem dizia que a escola online funcionava quando outros não tinham sequer acesso à internet. Começámos a odiar quem sorria quando só conseguíamos chorar. E isto foi, talvez, o mais humano de todos os erros: não aceitarmos a dor dos outros quando não era igual à nossa.

O ódio ganhou novas formas. Passou a ser mais sofisticado, mais polido, mais "legítimo". Tornou-se politicamente rentável. Alguns líderes souberam lê-lo e explorá-lo. Apareceram os salvadores, os que dizem "o povo está farto", os que prometem ordem, castigo, exclusão. E o povo ouviu. A raiva encontrou porta-voz. E passou a vestir gravata.

No pós-pandemia, quando finalmente saímos à rua, encontrámo-nos diferentes. Muitos estavam mais fechados, menos tolerantes, mais impacientes. A convivência tornou-se frágil. O trânsito explodia com buzinadelas. Os cafés enchiam-se de olhares desconfiados. As discussões tornaram-se mais rápidas, mais violentas. Bastava uma palavra mal colocada para o sangue ferver.

Hoje, talvez já nem nos apercebamos de como estamos mais duros. Como passámos a usar o sarcasmo como defesa e a indiferença como escudo. Como, no fundo, ainda vivemos em modo pandemia emocional: fechados em nós, com medo de confiar, sempre prontos a atacar.

Este é o maior legado não falado da COVID-19: o crescimento de uma cultura de hostilidade. E é também o mais perigoso. Porque o vírus que nos fechou em casa tinha prazo. Mas o ódio que nos fechou por dentro continua a circular — sem máscara, sem distanciamento, sem cura à vista.

A pergunta, agora, é: queremos continuar assim?

segunda-feira, 16 de junho de 2025

O Teatro das Promessas


Abrimos o telemóvel e, num scroll inocente, somos confrontados com uma realidade paralela onde todos parecem ricos, felizes, focados, curados, sarados e a trabalhar diretamente de uma piscina com borda infinita. A culpa, dizem-nos, é nossa. Porque ainda não comprámos aquele curso milagroso de produtividade, não fizemos a mentoria de uma qualquer iluminada digital ou, pior ainda, porque ainda não jogámos o novo jogo de telemóvel que já fez "milhares de pessoas milionárias". Sim, claro. Milhares de pessoas. Milionárias. Com um jogo onde se alinham frutas.

Vivemos no apogeu das promessas fáceis. Tudo é possível, desde que cliques, pagues ou partilhes. Jogos que supostamente te rendem dinheiro real, mas que só te enchem a caixa de entrada de spam e anúncios. Cursos sobre “viver do teu propósito” dados por quem nem sabe conjugar verbos. Mentorias conduzidas por pessoas que há um ano estavam a partilhar vídeos a chorar no carro e que hoje se intitulam “estrategas de mentalidade”. E tu, pobre mortal, acreditas. Porque estás cansada. Porque queres mesmo acreditar. Porque te disseram que a culpa de estares exausta e perdida é tua. E quem te disse isso foi alguém que tirou três frases de um livro de autoajuda e as escreveu num post com flores ao fundo.

A verdade é que o novo negócio das redes sociais não é vender produtos. É vender esperança. Vender sentido. Vender cura. Vender dinheiro. Prometer transformação a troco de um Mbway ou de três prestações mensais. Só que não há transformação. Há sim um PDF de 10 páginas mal escritas, vídeos gravados ao telemóvel e frases do Pinterest ditas em tom de revelação espiritual. E se não funcionar, se continuares ansiosa, confusa, falida ou perdida? A culpa é tua, claro. Porque não te entregaste ao processo. Porque não acreditaste o suficiente. Porque não pagaste o módulo avançado.

Até o Bitcoin, que nasceu como símbolo de descentralização e liberdade, virou produto de engodo. Não pela moeda em si, mas pelos evangelistas de Instagram que juram que enriqueceram a dormir, mas passam o dia a tentar vender-te um curso sobre como fazer o mesmo. Os sinais mágicos do Telegram, os gráficos, os vídeos de Lamborghinis alugados — tudo serve para pintar o quadro de uma vida de abundância que só existe porque alguém continua a comprar a ilusão.

Estamos rodeados de palcos. Cada perfil é uma personagem. Cada história um enredo. E nós, na ânsia de também fazer parte, de também chegar lá, de também pertencer, vamos pagando bilhete para um espetáculo onde o final já está escrito: alguém lucra, nós aplaudimos — e continuamos sentados no mesmo lugar.

Acordar neste mundo de promessas pode ser desconfortável. Mas continuar a viver nele pode sair ainda mais caro.

sábado, 14 de junho de 2025

O Maravilhoso Mundo dos Narcisistas (ou como viver com uma estrela de cinema sem bilhete de saída)


Conviver com um narcisista é, no mínimo, uma experiência espiritual. Não no sentido elevado da palavra, claro. É mais uma peregrinação ao inferno com paragem obrigatória no Museu das Egolatrias.

Eles não entram numa sala. Eles acontecem numa sala. E a sala que não retribui com uma ovação de pé está automaticamente desclassificada da sua existência. A culpa é tua, sempre tua. Se a planta morreu, se o cão mordeu alguém, se há guerra no Médio Oriente... foste tu que não deste apoio emocional suficiente à divindade doméstica.

O narcisista tem um talento inato para ser a vítima em qualquer situação. Podias estar em chamas e ele queixar-se de que o fumo lhe está a irritar os olhos. Tinhas um acidente? Ele lembra-se imediatamente de quando partiu uma unha há três anos e ainda não recuperou emocionalmente.

Amor próprio? Eles têm tanto que não sobra espaço para ti. Aliás, o narcisista não ama — admira-se. Diariamente. Com devoção. São como um espelho com pernas que exige likes presenciais. Um feed de Instagram em carne e osso, que precisa constantemente de validação, mas nunca valida ninguém. A única empatia que praticam é por si próprios — quando se imaginam em cenários de sofrimento que nunca viveram, mas que descrevem com lágrimas nos olhos e voz trémula. Oscar garantido.

Não confundas charme com caráter. O narcisista é sedutor em público e tirano em privado. Conquista-te com palavras doces e devora-te com críticas azedas. E se por acaso fores tu quem tem sucesso… prepara-te. De repente, foste ajudado por ele, foste inspirado por ele, foste praticamente construído por ele. Um milagre ambulante da sua influência divina.

Gaslighting? É a língua materna. Vais duvidar de ti, da tua sanidade, e eventualmente da gravidade, porque o narcisista convence-te de que és tu que flutuas nos problemas. Eles? Eles só tentam "ajudar-te a seres melhor". A melhor versão de ti é a versão que se cala, aceita e aplaude.

E atenção: nunca, mas nunca, critiques um narcisista. É como cuspir num espelho de cristal. Vais ouvir um discurso tão carregado de ultraje que vais começar a pensar que assassinaste um panda bebé à frente do Papa.

Mas a verdadeira arte do narcisista é a saída dramática. Quando já te esvaziaram emocionalmente, socialmente e às vezes financeiramente, fazem questão de te abandonar como se estivessem a oferecer-te um presente. “Estou a fazer isto por ti”, dizem, enquanto sobem para o altar do martírio emocional onde são, simultaneamente, a vítima, o herói e o messias.

No fim, deixaram-te mais magro emocionalmente, mais cínico, e com uma nova alergia: elogios demasiado entusiasmados vindos de pessoas que falam de si próprias na terceira pessoa.

Moral da história? Se parecer demasiado brilhante, demasiado encantador, demasiado perfeito… não te aproximes. É um espelho de circo. E os espelhos distorcem. Às vezes, até a alma.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Nome de Código - Agente imobiliário


Quando se pensa num agente imobiliário, muitos imaginam alguém de fato engomado, sempre com um sorriso pronto, a abrir portas e a mostrar casas. Mas a verdade é que, por detrás desse gesto aparentemente simples, existe uma profissão exigente, multifacetada e profundamente humana.

O agente imobiliário é, antes de mais, um mediador de sonhos. Trabalha entre quem deseja vender e quem procura comprar ou arrendar, mas não apenas isso. Lida com expectativas, com emoções, com vidas em mudança. Um divórcio, um nascimento, um regresso do estrangeiro, um investimento planeado durante anos – cada cliente traz consigo uma história, e cabe ao agente escutá-la com atenção, sensibilidade e discrição.

Infelizmente, em Portugal, esta profissão continua a ser amplamente desvalorizada. Muitos ainda a encaram como um “extra”, um plano B, ou algo que qualquer pessoa pode fazer sem grande preparação. Confunde-se frequentemente simpatia com competência, e disponibilidade com profissionalismo. Poucos reconhecem o esforço, a formação, os custos e a dedicação que estão por trás de um trabalho bem feito na mediação imobiliária.

Mas parte da culpa desta falta de reconhecimento vem também de dentro. O setor está contaminado por uma franja de maus profissionais: vendedores de ilusões, com mais gosto por selfies do que por contratos bem redigidos. Autointitulam-se "coachs", "mentores", "gurus do imobiliário", quando na verdade apenas repetem chavões vazios, alheios à realidade do mercado, usando a aparência de sucesso para mascarar práticas duvidosas. Vendem fórmulas mágicas e prometem enriquecimento rápido, enquanto atropelam a ética, os colegas e, por vezes, até os próprios clientes.

Ainda mais grave, são aqueles que ocupam posições de liderança, brokers ou gerentes, que em vez de formarem, apoiarem e cuidarem das suas equipas, vivem à sombra dos resultados dos outros. Apropriam-se do sucesso dos seus mediadores, usam os contratos fechados por eles para se apresentarem como o "número um", como o "mais bem-sucedido", como o exemplo a seguir. Gostam de ser idolatrados, de dar palestras, de aparecer nas redes sociais como gurus iluminados do imobiliário – mas esquecem-se de que o verdadeiro líder não sobe às custas dos outros, eleva os outros com ele.

Felizmente, também existem brokers diferentes – aqueles que merecem ser destacados. Os que são conciliadores nas crises, motivadores nos dias de dúvida, e sobretudo, apoio incondicional nos momentos em que o desânimo bate à porta. São eles que conhecem as dificuldades reais da profissão, que dão espaço para crescer, que ensinam com humildade e defendem com firmeza. O bom broker não se limita a cobrar metas: constrói confiança, transmite visão, protege a equipa. E por isso, mesmo longe do palco, é o verdadeiro pilar do sucesso coletivo.

A profissão exige conhecimentos técnicos rigorosos: avaliação de imóveis, legislação urbanística, contratos, fiscalidade, certificações energéticas, entre outros. Mas também requer competências humanas: saber negociar sem manipular, escutar com empatia, gerir emoções, resolver conflitos e respeitar limites. E tudo isto, muitas vezes, sem horários convencionais, sem rendimentos garantidos e num mercado cada vez mais competitivo e exigente.

É uma profissão de altos e baixos, de sucessos e frustrações. Onde se trabalha quando os outros descansam, onde o esforço de hoje pode não render amanhã, onde a resiliência é tão essencial quanto o conhecimento. E, no entanto, é também uma profissão que traz orgulho. O sorriso de quem encontrou finalmente o seu lar, o obrigado de quem se sentiu representado e respeitado, a sensação de ter feito parte de algo significativo.

Ser agente imobiliário não é tirar fotografias a casas bonitas nem decorar frases de motivação ocasional. É, todos os dias, recomeçar. É, todos os dias, servir. E, todos os dias, fazer melhor.

Portugal precisa de valorizar esta profissão com seriedade. É tempo de reconhecer que ser agente imobiliário não é uma solução de recurso, mas uma carreira exigente, com impacto direto na vida das pessoas. Uma carreira que merece respeito, regulação séria e uma cultura profissional limpa de vaidades, farsas e aproveitamentos.

Porque no fim, o verdadeiro sucesso não está nos likes, nos prémios comprados, nem nas selfies com troféus. Está na reputação silenciosa, no cliente que volta, no colega que confia e na consciência tranquila de quem sabe que não precisa de palco para fazer bem o seu trabalho.

Influencers da Vida Real:


Vivemos na era da influência. Mas não me refiro aos que vendem cremes caros ou leggings que levantam o rabo no Instagram. Falo dos verdadeiros influencers da vida real – aqueles que, sem saber, moldam o mundo à sua volta com um misto de ignorância confiante e certezas mal fundamentadas.

São os especialistas em tudo e mais alguma coisa. Não têm seguidores, têm ouvintes involuntários. Aparecem em cafés, almoços de família, filas dos correios e até grupos de WhatsApp. Onde houver silêncio, lá está um deles, pronto a encher o ar com opinião disfarçada de sabedoria.

O “Eu Cá Acho…”

A frase de arranque é sempre um clássico:

“Eu cá acho que isto da inflação é tudo culpa do Marcelo.”

Não importa que não saibam o que é a taxa de juro ou que confundam o spread bancário com creme de barrar. A opinião vem com força, convicção e um ligeiro toque de desprezo por quem leu alguma coisa a sério sobre o assunto.

O Coach Acidental

Alguns ganham estatuto de “aconselhadores não requisitados”. São os que, ao ver alguém em crise, largam pérolas como:

> “Sabes o que precisas? É de pensar positivo!”
Claro. Porque a ansiedade, a depressão e a crise existencial se resolvem com uma frase de caneca comprada nos saldos da Ale-Hop.

O Teórico da Conspiração Light

Depois temos os influencers da teoria alternativa, que começam frases com “isto ninguém diz, mas...” e terminam a convencer o primo desempregado de que a Terra plana é uma possibilidade e que as vacinas são um plano de controlo populacional elaborado pela... padaria da esquina, talvez?

O Expert em Educação (sem filhos)

Há também o influencer da pedagogia improvisada. Nunca criou um filho, mas sabe perfeitamente que se o miúdo faz birras é porque “os pais não sabem dizer não”.
Fazem pausas dramáticas e  falam com a autoridade de quem viu três episódios do Supernanny e leu meio artigo do Observador.

O Estilo de Vida que Não Pedimos

Estes influencers da realidade gostam também de ditar regras sobre estilo de vida:

“Como assim ainda não fazes jejum intermitente?”

“Ainda comes glúten? Isso inflama tudo, sabias?”

“Eu bebo água com limão em jejum e nunca mais tive problemas com... com... olha, com nada!”


A Conclusão Que Não Precisamos

No fundo, estes influencers caseiros fazem parte do nosso folclore social. São como os sinos das igrejas ao domingo de manhã: irritantes, barulhentos, mas tão habituais que já nem damos conta que nos estão a influenciar... para o abismo.

Se calhar o verdadeiro perigo não está nos influencers de rede social, mas nestes de carne e osso, que nos apanham desprevenidos no café, no grupo de pais ou no banco de trás de um Uber partilhado.

Porque no fim do dia, nada influencia mais do que a convicção de quem não tem noção.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Ode ao Café - esse Salvador

Há prazeres discretos que sustentam os dias. Não fazem alarido, não exigem reconhecimento público, não precisam de justificações. Limitam-se a estar ali, como um segredo entre o corpo e a alma. O café é um desses prazeres. Elogiá-lo não é um acto de banalidade: é um tributo ao ritual que nos devolve o eixo, à pequena pausa que suspende o ruído do mundo e nos permite, por breves instantes, existir com mais intenção.

O café é mais do que uma bebida. É um instante. Um compasso. Uma espécie de ponte invisível entre o que somos e o que ainda vamos ser nesse dia. Há quem o beba a correr, como quem se injeta coragem líquida antes de enfrentar o caos. Outros preferem saboreá-lo devagar, como quem escuta o tempo em silêncio. Seja como for, o café cumpre a sua missão: acorda-nos o corpo, mas, sobretudo, acorda-nos por dentro.

Há algo de profundamente democrático no café. Serve o operário e o doutor, o poeta e o contabilista, a dona de casa e o estudante exausto. É barato ou sofisticado, instantâneo ou tirado a preceito. Mas nunca perde a sua função de conforto. É o abraço quente de um velho amigo. A desculpa perfeita para uma conversa adiada. O início informal de muitos amores. E o fecho respeitoso de muitas despedidas.

E depois há o cheiro. Esse aroma inconfundível que nos conduz pelas memórias como uma bússola afetiva. O café tem o dom de nos fazer sentir em casa, mesmo nos dias em que tudo parece fora do lugar. Um café bem tirado devolve-nos uma espécie de dignidade. Como se dissesse: “ainda estás aqui, ainda podes tentar outra vez”.

Num mundo que acelera sem parar, onde tudo se faz com urgência e pouca alma, o café insiste na pausa. Convida à contemplação. Exige temperatura certa, tempo certo, medida certa. E, talvez por isso, seja também um lembrete subtil de que o que vale a pena precisa de cuidado e atenção.

Por tudo isto – e por aquilo que nem sabemos explicar mas sentimos ao primeiro trago – hoje escrevo este elogio. Ao café. Ao milagre simples de uma chávena que nos reconcilia com o dia. Que nunca nos falte.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Às vezes, o Silêncio é Melhor

Vivemos num tempo em que todos falam. Fala-se nas redes, nos grupos de WhatsApp, nas reuniões, nos cafés, nos noticiários e até nos comentários das notícias que nem lemos até ao fim. Fala-se por impulso, por necessidade de opinião, por medo de parecer ausente, por hábito. Mas poucas vezes paramos para nos perguntar: será mesmo necessário dizer alguma coisa?

O silêncio tem má fama. É confundido com fraqueza, com omissão, com indiferença. Ensinaram-nos que quem cala consente, que o silêncio é um vazio a preencher, uma falha a corrigir. No entanto, há silêncios que gritam verdades que nenhuma palavra alcança. Há silêncios que respeitam, que protegem, que curam. E há silêncios que são, simplesmente, mais sábios do que qualquer discurso.

Nem sempre precisamos de responder no momento. Nem sempre temos de nos justificar. Há conversas que não merecem resposta, há provocações que não merecem eco, há discussões que só sobrevivem alimentadas pelo ruído. E há dores que não precisam de conselhos, apenas de presença. Um olhar. Uma mão pousada com ternura. Um silêncio inteiro que diz: “estou aqui”.

O silêncio também é escolha. É escuta. É humildade em reconhecer que não temos todas as respostas, que o outro talvez só precise de ser ouvido, sem ser corrigido. É maturidade em perceber que nem tudo o que nos magoa merece reacção, que há batalhas que se ganham com a serenidade de quem não se deixa arrastar para o caos.

Por vezes, é no silêncio que nos reencontramos connosco. No meio do barulho do mundo, esquecemo-nos de escutar o que se passa cá dentro. Tapamos com ruído o que não queremos sentir. Mas quando finalmente nos calamos, quando deixamos de fugir das pausas, ouvimos as perguntas que evitávamos, as verdades que temíamos, e as respostas que sempre estiveram lá.

Não, o silêncio não é ausência. É presença no seu estado mais cru. É escolha consciente de não ferir, de não alimentar ruído, de não desperdiçar energia. É a coragem de ficar calado quando tudo em nós quer gritar, mas o coração já sabe que gritar não resolve.

Às vezes, o silêncio é abandono. Mas noutras vezes — nas mais importantes — é cuidado. É amor. É respeito. E, acima de tudo, é sabedoria.

domingo, 8 de junho de 2025

Criatividade cansada: o bloqueio da mulher que pensa demais

Dizem que quem tem ideias nunca se perde. Que a criatividade é um dom, uma força, uma chama que ilumina os cantos escuros da rotina. Dizem. Mas esquecem-se de avisar que pensar demais também cansa. E que às vezes, essa tal criatividade não morre — apenas se esconde atrás de uma fadiga que não se vê.

Há dias em que tenho dez ideias antes de sair da cama. Histórias que podiam ser livros. Frases que dariam bons inícios. Personagens que vivem dentro de mim a pedir palco. Mas depois levanto-me, ponho a máquina do café a trabalhar, vejo os pratos da noite anterior na pia, lembro-me dos prazos, dos filhos, do cão, das contas, do corpo que dói, da lista do supermercado e pronto. A arte evapora-se. Fica só uma mulher exausta a olhar para o ecrã.

Chama-se bloqueio criativo, dizem.

Mas eu acho que é mais que isso. É um apagão provocado por excesso de luz. Por pensar demais. Por sentir em demasia. Por tentar fazer sentido de tudo. A mulher que pensa demais vive a rebentar de ideias, mas sufoca porque não tem onde pousá-las em paz.

Não é falta de inspiração. É excesso de responsabilidade.

Não é falta de talento. É ausência de tempo emocional.

Não é preguiça. É sobrevivência.

E o mais curioso é que ninguém percebe. Porque por fora continuamos a funcionar. Respondemos a e-mails, vamos às reuniões, ajudamos com os trabalhos de casa, sorrimos quando perguntam se está tudo bem. Por dentro, no entanto, a fábrica das ideias está em greve. A alma fecha para obras e não avisa.

Mas hoje decidi escrever mesmo assim.

Com cansaço, com dúvidas, com essa vozinha cá dentro que diz “isto não presta para nada”. Porque talvez o maior acto criativo seja continuar — mesmo quando não apetece, mesmo quando não flui. Talvez criar, para mulheres como eu, seja uma espécie de teimosia emocional. Uma luta entre o que a cabeça diz e o que o coração grita.

E se tu, que lês isto, também te sentes assim — só quero que saibas: não estás sozinha. A tua criatividade não desapareceu. Só está cansada. Como tu.

Dá-lhe tempo. E dá-te colo.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Ainda Espero que o Telefone Toque

 

Perder o meu pai foi morrer um pouco também. Foi ver o mundo virar do avesso sem aviso prévio, sem preparação possível. O meu pai era o meu norte e o meu sul, o meu mapa mundo. O meu ponto de referência em dias bons e o meu farol em noites escuras. Era o apoio incondicional, a voz firme e doce que dizia: "Filha minha não desiste. És mais forte que qualquer homem que eu conheça." E eu acreditava. Porque ele acreditava em mim.

Morreu de repente, em agosto de 2023. Sem tempo para despedidas, sem tempo para um último abraço, um último beijo, uma última discussão até. Fiquei sem chão, órfã sem o ser. De repente, herdei um papel que não pedi: o de guardiã dos seus últimos desejos, a mestre de cerimónias de uma despedida que me desfez por dentro. Fiz o que tinha de ser feito, porque ele merecia tudo, porque confiou em mim para além da vida, mas fiz em pedaços, com o coração em estilhaços e a alma ausente.

Hoje, continuo à espera que o telefone toque. Que do outro lado venha aquela voz que me ralhava por não ligar, por andar sempre tão ocupada. Continuo à espera do abraço forte com vontade, daquele beijo que picava mas que dizia mais que mil palavras. Até das refiladelas tenho saudades, das broncas, dos "não te metas nisso" que sempre vinham seguidos de um "mas se precisares, estou aqui".

A filha dele continua a ser forte. Mas perdeu-se de si mesma naquele agosto. Continua a ser a “idiota” com a cabeça cheia de ideias e planos, mas agora não sabe por que ponta pegar. Continua a defender aquilo em que acredita, mas há dias em que se pergunta em silêncio: e se desistisse só desta vez? E no entanto, recomeça. Porque ele não a ensinou a parar. Ensinou-a a resistir, a tentar outra vez, mesmo quando tudo parece perdido.

Há dores que o tempo não apaga. Há ausências que ninguém preenche. O meu pai era a minha âncora. E agora ando à deriva. Mas se me escutar com atenção, ainda o ouço a dizer: vai, filha, tu consegues. E vou. Meio perdida, meio sem saber quem sou sem ele, mas vou.

Porque ser filha dele é a minha força. E o meu luto é também uma homenagem. A quem me ensinou a não desistir... 

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"

Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explo...