segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando o corpo é julgado em vez de ser cuidado


Há dores que se sentem no corpo. E há outras que se instalam mais fundo, na alma — dores que não vêm da doença, mas da forma como somos tratados por tê-la.

Hoje quero falar da discriminação médica contra pessoas com excesso de peso. E quero fazê-lo não com estatísticas frias, mas com uma história real. A minha.

Quando o meu filho mais velho nasceu, eu quase o perdi. E quase me perdi a mim também.

Estive três dias em trabalho de parto. Três dias de dor ininterrupta, de medo crescente, de febre que subia, de delírios que chegavam. Levei dezassete reforços de epidural. Chorei. Desfaleci. Delirei. Mas o que me disseram foi sempre o mesmo: “Ainda não está na altura. É melhor esperar.”

Esperar o quê?

Esperar que o meu corpo falhasse por completo?

Esperar que o meu filho deixasse de responder?

Durante esses dias, o líquido amniótico desapareceu. O meu bebé ficou mais de 24 horas sem essa proteção. E mesmo assim, recusavam fazer-me uma cesariana. Porquê? Porque eu tinha excesso de peso.

A minha dor, o sofrimento fetal, os sinais claros de risco foram todos ignorados, adiados, relativizados.

A única coisa que os médicos viam… era o meu corpo.

Não o meu coração de mãe.

Não o meu bebé em sofrimento.

Apenas o número na balança.

Só quando a situação se tornou insustentável é que me levaram para o bloco. Só quando o risco de morte era real é que decidiram agir. Foi uma cesariana de urgência, feita à pressa, depois de dias em que tudo podia ter sido evitado.

E por muito que hoje olhe para o meu filho e me sinta grata por ele estar cá, há uma ferida que não fecha. A ferida de saber que, para muitos médicos, o meu corpo gordo não merecia pressa. Nem escuta. Nem compaixão.

Essa é a verdade dura que milhares de pessoas vivem todos os dias.

Quando tens excesso de peso, a tua dor é sempre culpa tua.

Se tens dores nas articulações, é o peso. Se tens falta de ar, é o peso. Se tens febre, fadiga, infeções, nódulos, palpitações — tudo é, invariavelmente, explicado pelo peso.

O problema? É que muitas vezes não é o peso. E essa obsessão cega em associar tudo ao corpo visível faz com que se ignore o invisível.

As consequências? Diagnósticos errados. Doenças não detectadas a tempo. Tratamentos inadequados. E uma culpa que se cola à pele como uma sentença. Como se fosse sempre o doente o culpado — nunca o sistema.

Esta forma de discriminação é tão interiorizada que já se tornou “normal”.

Já ouvi médicos a dizer que não vale a pena pedir exames — “porque o problema está à vista.”

Já me disseram para emagrecer… no meio de uma crise de Crohn, onde o meu corpo nem absorvia nutrientes.

Já ouvi risos abafados num bloco. Já senti olhares que me despiram mais do que qualquer bata aberta.

Já vi mães a serem humilhadas em consultas de ginecologia.

Já vi pacientes com lágrimas nos olhos a dizerem: “Sinto que não me veem. Só vêem o meu peso.”

Isto não é medicina.

Isto é violência.

É urgente que falemos sobre isto com seriedade.

É urgente que os profissionais de saúde compreendam que o excesso de peso não pode ser um filtro que distorce todos os sintomas.

É urgente reeducar, reavaliar, repensar a forma como olhamos para corpos que não cabem nos padrões — mas que têm tanto direito à saúde, à escuta e ao cuidado como qualquer outro.

Porque não, nem tudo se resume a emagrecer. E mesmo quando se trata de peso, a abordagem tem de ser feita com respeito, empatia e humanidade.

A medicina não pode ser punitiva.

Não pode ser cínica.

Não pode excluir quem mais precisa dela.

Eu sobrevivi. Mas há quem não sobreviva.

Há quem morra por um diagnóstico adiado, por uma cirurgia recusada, por uma infeção não tratada, por um preconceito disfarçado de recomendação clínica.

Há quem morra por não ser visto.

Por isso escrevo.

Por isso falo.

Por isso não me calo.

Porque se a minha voz conseguir que um médico pense duas vezes antes de julgar um corpo, já terá valido a pena.

Porque se alguém que me lê sentir que não está sozinho, já terei cumprido o meu papel.

E tu que me lês — se já passaste por isto — acredita: o teu valor não se mede em quilos.

A tua dor é real.

O teu corpo merece cuidado.

Tu mereces ser tratada com dignidade.

E se fores profissional de saúde, lembra-te: um corpo não é um castigo. É uma história. É uma vida. É uma mãe, uma filha, um homem, um filho, alguém que só quer ser ouvido e tratado com humanidade.

Vamos conversar. A sério.


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