terça-feira, 29 de julho de 2025

Enquanto Portugal Arde...


Arde o Gerês.

Arde o Alentejo. Arde Trás-os-Montes. Arde o Centro. Arde o país inteiro.

Portugal volta a arder como arde há décadas. Em silêncio, em fúria, em abandono.

Todos os anos, sem falhar, voltamos a ver o mesmo cenário: a terra queimada, o céu tapado de fumo, os rostos cansados dos bombeiros, os animais em fuga, as casas ameaçadas, a esperança calcinada.

Mas não são só árvores que ardem.

São séculos de história vegetal, são percursos de infância, são ervas que curavam, sombras que refrescavam, ribeiros que contavam segredos.

Arde aquilo que somos. Porque nós, portugueses, somos feitos da nossa terra.

E quando ela arde, arde-nos a alma.

Ano após ano, ouvimos as mesmas promessas, os mesmos discursos de circunstância, os mesmos relatórios que não chegam a lado nenhum. Mas a verdade está à vista de todos: Portugal é um país a arder em câmara lenta, tragado pela falta de prevenção, pela má gestão, pela ausência de políticas de ordenamento do território eficazes e pela negligência criminosa.

A culpa não é do calor.

A culpa é da indiferença.

Vivemos num país onde há mais investimento em apagar do que em prevenir.

Onde as aldeias morrem, as matas ficam ao abandono e os terrenos tornam-se labirintos de combustível seco.

Onde quem vive na terra grita há anos por soluções — e ninguém escuta.

E enquanto as chamas avançam, há pessoas a serem retiradas à pressa de casa, há animais carbonizados sem sequer terem tempo de fugir, há vidas inteiras a caberem numa mala feita à pressa.

E há bombeiros que arriscam a própria vida por trocos, por vocação, por amor à farda, porque o Estado não os valoriza como devia.

São eles os heróis que todos aplaudem… mas que poucos defendem quando o fogo se apaga.

Enquanto Portugal arde, as televisões contam hectares, mas ninguém conta as perdas invisíveis:

– os pequenos agricultores que veem tudo desaparecer,

– os animais selvagens que não têm para onde fugir,

– as crianças que crescem a achar normal ver o fumo no verão,

– os nossos avós que olham para os montes e já não os reconhecem.

Dizem que é a natureza.

Mas a natureza não se autodestrói assim.

O que vemos é o reflexo de um país que vira costas ao seu interior, às suas florestas, à sua identidade rural.

É o preço de termos desertificado por dentro e por fora.

O Gerês é só um exemplo maior. Um grito mais fundo.

Mas cada terra que arde em Portugal é uma ferida que devia doer a todos.

Não há litoral que esteja a salvo quando o interior é esquecido.

Não há capital que prospere enquanto o país real se desfaz em cinza.

Talvez um dia, quando já nada restar senão silêncio, alguém olhe para trás e perceba o que perdemos.

Talvez um dia, com sorte, ainda haja algo para salvar.

Mas enquanto esse dia não chega, há quem chore a terra queimada.

Há quem escreva para lembrar.

E há quem lute — mesmo com lágrimas nos olhos — para que Portugal volte a ser verde, vivo e inteiro.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando o corpo é julgado em vez de ser cuidado


Há dores que se sentem no corpo. E há outras que se instalam mais fundo, na alma — dores que não vêm da doença, mas da forma como somos tratados por tê-la.

Hoje quero falar da discriminação médica contra pessoas com excesso de peso. E quero fazê-lo não com estatísticas frias, mas com uma história real. A minha.

Quando o meu filho mais velho nasceu, eu quase o perdi. E quase me perdi a mim também.

Estive três dias em trabalho de parto. Três dias de dor ininterrupta, de medo crescente, de febre que subia, de delírios que chegavam. Levei dezassete reforços de epidural. Chorei. Desfaleci. Delirei. Mas o que me disseram foi sempre o mesmo: “Ainda não está na altura. É melhor esperar.”

Esperar o quê?

Esperar que o meu corpo falhasse por completo?

Esperar que o meu filho deixasse de responder?

Durante esses dias, o líquido amniótico desapareceu. O meu bebé ficou mais de 24 horas sem essa proteção. E mesmo assim, recusavam fazer-me uma cesariana. Porquê? Porque eu tinha excesso de peso.

A minha dor, o sofrimento fetal, os sinais claros de risco foram todos ignorados, adiados, relativizados.

A única coisa que os médicos viam… era o meu corpo.

Não o meu coração de mãe.

Não o meu bebé em sofrimento.

Apenas o número na balança.

Só quando a situação se tornou insustentável é que me levaram para o bloco. Só quando o risco de morte era real é que decidiram agir. Foi uma cesariana de urgência, feita à pressa, depois de dias em que tudo podia ter sido evitado.

E por muito que hoje olhe para o meu filho e me sinta grata por ele estar cá, há uma ferida que não fecha. A ferida de saber que, para muitos médicos, o meu corpo gordo não merecia pressa. Nem escuta. Nem compaixão.

Essa é a verdade dura que milhares de pessoas vivem todos os dias.

Quando tens excesso de peso, a tua dor é sempre culpa tua.

Se tens dores nas articulações, é o peso. Se tens falta de ar, é o peso. Se tens febre, fadiga, infeções, nódulos, palpitações — tudo é, invariavelmente, explicado pelo peso.

O problema? É que muitas vezes não é o peso. E essa obsessão cega em associar tudo ao corpo visível faz com que se ignore o invisível.

As consequências? Diagnósticos errados. Doenças não detectadas a tempo. Tratamentos inadequados. E uma culpa que se cola à pele como uma sentença. Como se fosse sempre o doente o culpado — nunca o sistema.

Esta forma de discriminação é tão interiorizada que já se tornou “normal”.

Já ouvi médicos a dizer que não vale a pena pedir exames — “porque o problema está à vista.”

Já me disseram para emagrecer… no meio de uma crise de Crohn, onde o meu corpo nem absorvia nutrientes.

Já ouvi risos abafados num bloco. Já senti olhares que me despiram mais do que qualquer bata aberta.

Já vi mães a serem humilhadas em consultas de ginecologia.

Já vi pacientes com lágrimas nos olhos a dizerem: “Sinto que não me veem. Só vêem o meu peso.”

Isto não é medicina.

Isto é violência.

É urgente que falemos sobre isto com seriedade.

É urgente que os profissionais de saúde compreendam que o excesso de peso não pode ser um filtro que distorce todos os sintomas.

É urgente reeducar, reavaliar, repensar a forma como olhamos para corpos que não cabem nos padrões — mas que têm tanto direito à saúde, à escuta e ao cuidado como qualquer outro.

Porque não, nem tudo se resume a emagrecer. E mesmo quando se trata de peso, a abordagem tem de ser feita com respeito, empatia e humanidade.

A medicina não pode ser punitiva.

Não pode ser cínica.

Não pode excluir quem mais precisa dela.

Eu sobrevivi. Mas há quem não sobreviva.

Há quem morra por um diagnóstico adiado, por uma cirurgia recusada, por uma infeção não tratada, por um preconceito disfarçado de recomendação clínica.

Há quem morra por não ser visto.

Por isso escrevo.

Por isso falo.

Por isso não me calo.

Porque se a minha voz conseguir que um médico pense duas vezes antes de julgar um corpo, já terá valido a pena.

Porque se alguém que me lê sentir que não está sozinho, já terei cumprido o meu papel.

E tu que me lês — se já passaste por isto — acredita: o teu valor não se mede em quilos.

A tua dor é real.

O teu corpo merece cuidado.

Tu mereces ser tratada com dignidade.

E se fores profissional de saúde, lembra-te: um corpo não é um castigo. É uma história. É uma vida. É uma mãe, uma filha, um homem, um filho, alguém que só quer ser ouvido e tratado com humanidade.

Vamos conversar. A sério.


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Antes do Fim...


Há uma morte que é injusta, não porque exista, mas porque chega quando ainda havia tanto por acontecer.

É a morte que interrompe e não a que encerra.

Aquela que aparece a meio de uma frase, no meio de um gesto, no princípio de uma mudança.

É a morte que não respeita o compasso da vida, que entra sem ser convidada, sem cerimónia, e pára tudo sem se importar com o que estava em construção.

Fala-se muito da morte como inevitável.

Como uma etapa natural, como uma certeza.

Mas pouco se fala da sua crueldade quando rouba alguém que ainda estava a tentar perceber quem era.

Pouco se diz sobre o que se perde quando alguém morre sem ter tido tempo de ser inteiro.

De amar como merecia, de escolher o seu caminho, de recomeçar onde precisava.

Morrer cedo demais é, talvez, a forma mais brutal de injustiça — não no corpo, mas na alma.

Porque há vidas que, mesmo longas, não são vividas.

E há mortes que, mesmo prematuras, não seriam tão devastadoras se houvesse plenitude antes.

Mas quando alguém morre a meio de um processo de renascimento — quando finalmente começava a encontrar a sua voz, a libertar-se das amarras, a resgatar-se do cansaço — isso fere mais fundo.

Há algo de profundamente trágico numa vida em construção ser interrompida.

Como uma escultura a meio, como um livro com páginas em branco por preencher, como um quadro abandonado na primeira pincelada.

Não é só a ausência da pessoa — é a ausência da sua evolução.

É a história que nunca chegámos a ver acontecer.

É por isso que, quando a morte chega cedo demais, ela transporta não só o corpo, mas também os planos, os sonhos, as reconciliações que estavam prestes a acontecer, as viagens marcadas mas não feitas, os risos prometidos mas não ouvidos.

E então percebemos que vivemos como se houvesse sempre mais tempo.

Mais tempo para amar.

Mais tempo para mudar.

Mais tempo para pedir desculpa.

Mais tempo para sermos felizes, verdadeiramente.

Mas não há. Não há mais tempo.

O tempo que existe é este.

O agora, o presente, o instante em que ainda respiramos.

Quantos de nós vivem como se fossem eternos?

Guardamos o melhor para depois.

Guardamos palavras bonitas para um dia especial.

Guardamos a coragem para quando nos sentirmos preparados.

E esquecemo-nos de que a morte não espera por calendários nem por coragem.

Talvez o verdadeiro desafio da vida não seja sobreviver, mas viver como quem sabe que pode morrer a qualquer momento.

Viver com urgência, mas sem pressa.

Viver com intensidade, mas com presença.

Viver com propósito, mesmo sem certezas.

Porque se há algo pior do que morrer cedo, é morrer sem ter vivido com verdade.

É ter passado por esta vida de forma tímida, adiada, contida, como quem espera autorização para ser feliz.

Como quem acredita que viver é um luxo que só se permite quando tudo está calmo, arrumado, resolvido.

Mas a vida não espera por ordem.

E a morte também não.

No fundo, talvez a questão não seja se morremos cedo ou tarde, mas se morremos depois de ter vivido tudo aquilo que nos fazia sentido viver.

Se dissemos o que precisávamos dizer.

Se amámos como sabíamos amar.

Se nos perdoámos.

Se vivemos alinhados com aquilo que somos e com aquilo que sonhávamos ser.

A morte pode vir quando quiser.

Mas que não nos apanhe a meio de um sonho engavetado.

Que não nos leve com as palavras todas guardadas, com a coragem toda por estrear, com o coração todo por abrir.

Não podemos controlar o fim.

Mas podemos escolher como vivemos antes dele chegar.

Por isso, hoje, se me estás a ler:

Vai.

Diz.

Ama.

Perdoa.

Parte.

Volta.

Sente.

Não esperes pela reforma, pela coragem, pelo momento certo.

Porque a morte não tem relógio, e a vida não tem garantia. E não há tempo. Nunca houve. Só há agora — e muitas vezes não vemos isso. 

E pior do que morrer…

É morrer sem ter vivido. A vida não espera... 

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A Sombra Humana


Desde as primeiras pinturas nas cavernas até aos bombardeamentos em tempo real nas redes sociais, o ser humano parece carregar dentro de si uma inclinação visceral para o conflito. Não apenas o conflito de ideias — esse é saudável, construtivo e necessário à evolução — mas o conflito que destrói, que humilha, que mata. Porquê? O que é que leva o Homo sapiens, com todo o seu neocórtex desenvolvido e discurso civilizado, a perpetuar guerras, a assassinar por ódio ou por ambição, a destruir o outro como se, no fundo, isso fosse um ato de autopreservação?

A resposta não é simples, mas encontra eco na psicologia profunda, nas dinâmicas de grupo, nas teorias do trauma e até na neurobiologia. Carl Jung falava da “sombra” — o lado inconsciente e reprimido da personalidade, onde residem os instintos mais primitivos. A sombra, se não for reconhecida, confrontada e integrada, projeta-se nos outros. E o que se projeta, combate-se. O inimigo, muitas vezes, não é mais do que o espelho de tudo o que não suportamos ver em nós mesmos.

No fundo, odiamos no outro aquilo que não conseguimos aceitar em nós.

A guerra — seja ela entre países, famílias, ou dentro de uma casa — serve muitas vezes como palco onde o indivíduo liberta os seus demónios internos. A psicologia evolutiva sugere que, em tempos antigos, a violência era uma ferramenta de sobrevivência: proteger o clã, garantir recursos, marcar território. Mas se os tempos mudaram, o cérebro primitivo mantém-se, e com ele o sistema límbico preparado para reagir em modo de ataque ou fuga. A raiva, o ódio, o medo… são atalhos emocionais, mais rápidos que o pensamento racional. E onde o medo reina, a empatia morre.

A teoria da despersonalização do inimigo também é relevante. Em contexto de guerra ou violência social, o outro deixa de ser humano. Passa a ser “o terrorista”, “o porco capitalista”, “o comunista nojento”, “a vadia”, “o monstro”. Esta desumanização é uma estratégia inconsciente para permitir que o indivíduo viole os seus próprios princípios morais sem culpa. Não matamos pessoas — matamos coisas que aprendemos a odiar.

Além disso, existe uma dimensão coletiva e quase ritualista da guerra. René Girard falava do “bode expiatório” — a ideia de que as sociedades, quando sobrecarregadas de tensão, escolhem um elemento a sacrificar para restaurar a ordem. Esse “bode” pode ser um grupo étnico, um género, uma religião ou até uma criança na escola. O importante é que o sofrimento de todos seja canalizado para alguém. E depois da catarse, reinicia-se o ciclo.

A isto soma-se a psicologia do poder. O desejo de dominar, controlar, subjugar não nasce apenas da ganância. Muitas vezes nasce da insegurança. Do medo de ser irrelevante. Da ausência de identidade. Há líderes que fazem guerras para não se sentirem vazios. E há homens que matam porque nunca foram olhados com ternura. A dor reprimida, a vergonha internalizada, a raiva herdada tornam-se combustível. A violência torna-se linguagem. E matar, paradoxalmente, torna-se forma de existir.

Mas é importante dizer: a tendência para o conflito não é sinónimo de maldade intrínseca. A psicologia mostra que grande parte da agressividade humana é aprendida, modelada por contextos sociais e reforçada por traumas. Um menino que cresce num ambiente violento aprende que a força impõe respeito. Uma mulher que viveu sob opressão pode repetir a violência na forma de silêncio cúmplice. Os seres humanos não nascem monstros. Mas se forem feridos o suficiente — e se nunca forem amados — podem tornar-se.

A pergunta não é, então, “porque é que as pessoas fazem guerras?”, mas “porque é que não estamos a educar emocionalmente os nossos filhos para não as precisarem?”.

Estamos a criar génios para a tecnologia, mas analfabetos emocionais. Treinamos a mente, mas abandonamos a alma. E quando a alma é ignorada, ela grita. Às vezes grita com bombas. Outras com facas. Outras ainda com palavras que matam mais devagar.

A paz não é ausência de conflito. É presença de consciência. A paz começa quando deixamos de ver o outro como ameaça, e passamos a vê-lo como um espelho. E isso — infelizmente — continua a ser o maior dos desafios humanos.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Amor com fim de utilidade...

Vivemos numa era em que tudo se exige e pouco se agradece. Em nome da correria do dia-a-dia, da pressão do trabalho e das exigências da parentalidade moderna, muitos filhos esqueceram-se de ser… filhos. Esqueceram-se de olhar para os pais como seres humanos com história, com cansaço, com limites e, acima de tudo, com sentimentos.

Hoje em dia, muitos avós deixaram de ser avós para se tornarem criados de luxo. São os babysitters disponíveis 24 horas por dia, os motoristas de serviço, os que cozinham, limpam, passam a ferro, levam, trazem, alimentam, dão banho, fazem o lanche para a escola e, ainda por cima, têm de o fazer com um sorriso nos lábios. Porque se ousarem dizer que estão cansados, que têm dores, ou simplesmente que precisam de tempo para si, são apelidados de egoístas, ingratos ou desactualizados.

E o mais doloroso nisto tudo não é o trabalho em si, é a falta de reconhecimento. É o “obrigado” que nunca chega. É o abraço que não se dá. É o olhar que não vê. É o filho ou filha que só liga para pedir, que só aparece para deixar os netos e desaparecer, como se os pais tivessem a obrigação inata de estarem sempre disponíveis, sempre prontos, sempre prontos a ceder o seu tempo, a sua saúde e até a sua dignidade.

Muitos destes pais, agora avós, já criaram os filhos. Já passaram noites sem dormir, já trabalharam sem folgas, já se sacrificaram para que nada faltasse em casa. Agora, na fase da vida em que deveriam colher alguma tranquilidade, são arrastados para uma nova maratona, muitas vezes sem escolha, sem voz, sem sequer serem consultados.

E o mais irónico? É que, por vezes, são ainda criticados. Porque não fazem como se espera. Porque dizem que estão cansados. Porque têm opinião. Porque não querem dar mais dinheiro. Porque ousam lembrar que também são gente.

Não é raro ver filhos a desvalorizarem os pais. A ridicularizarem a maneira como falam, como pensam, como vivem. A ignorarem o que sentem, como se fossem apenas peças de um tabuleiro familiar cuja única função é facilitar a vida dos outros. E quando a saúde começa a falhar, quando já não conseguem dar tanto, a paciência esgota-se — e com ela, desaparece o respeito.

A verdade é que muitos netos são mais amados pelos avós do que pelos próprios pais — e isso deveria ser motivo de reflexão. Porque há avós que se desdobram para que os netos tenham o que os filhos não conseguem ou não querem dar. E mesmo assim, continuam invisíveis.

Não se trata de dizer que os pais não devam ajudar. Trata-se de equilíbrio, de respeito, de gratidão. Trata-se de lembrar que os avós não são obrigados — e que o que fazem é por amor, não por dever. Que têm o direito de dizer não. Que têm o direito de viver. E que o mínimo que merecem é serem valorizados, não usados.

Há filhos que ainda não perceberam que, um dia, os pais deixam de estar. E nesse dia, não é o tempo que se vai lamentar — é a ausência do que nunca se disse. O “obrigado” que ficou por dar. O “gosto de ti” que foi engolido pelo orgulho. O reconhecimento que nunca chegou.

A vida é feita de ciclos. E um dia, muitos dos que hoje usam os pais como muletas emocionais e logísticas, vão perceber que criaram filhos com o mesmo padrão: o de usar, exigir, desvalorizar.

E talvez aí seja tarde demais para se arrepender.

terça-feira, 8 de julho de 2025

A Tristeza Que Ninguém Vê


 Há uma tristeza que ninguém vê.

Não grita. Não chama a atenção. Não arrasta correntes. Está ali, disfarçada de força, de silêncio, de sorrisos automáticos. Vive nos pequenos gestos que ninguém nota. No “está tudo bem” que se diz por reflexo, para não incomodar, para não parecer frágil, para não explicar o que já ninguém tem paciência para ouvir.

É a tristeza de quem dá tudo e recebe quase nada.

De quem tenta todos os dias ser apoio, ser âncora, ser escudo.

De quem não pede ajuda porque sabe que, mesmo que pedisse, poucos saberiam como ajudar. E mesmo os que sabem, talvez não queiram.

É a tristeza de quem ouve os outros, mas quando fala… sente o silêncio do mundo a bater-lhe no peito.

É a tristeza de quem dá espaço, mas nunca lhe respeitam o seu.

De quem pergunta "como estás?" sem que ninguém devolva a pergunta.

É a tristeza de quem ouve os desabafos alheios e guarda os próprios num cofre sem chave.

De quem se anula para agradar.

De quem ajuda sem esperar nada — mas que, ainda assim, sente a dor da ingratidão.

De quem se cansa… mas continua.

De quem dá… e dá… e dá…

E quase nunca ouve um "obrigada".

Não é que se faça pelas palmas. Mas um obrigado sincero cura. Um gesto de reconhecimento acalma. Um olhar de empatia salva dias.

Mas vivemos numa era onde o ego fala mais alto que a gratidão, onde o “usa e deita fora” aplica-se até a pessoas. Onde o que não brilha no palco da internet… parece não ter valor.

Há sentimentos que ninguém valoriza.

Gentilezas que passam despercebidas.

Sacrifícios que ninguém menciona.

Presenças que só se notam quando desaparecem.

E é por isso que tanta gente boa se cala. Que tanta alma bonita se fecha. Que tantos corações generosos se tornam duros. Porque cansam-se de não caber no mundo que ajudaram a carregar.

Se te reconheces nisto, só te posso dizer uma coisa: o teu valor não depende da visão limitada dos outros.

Não és menos porque não te aplaudem.

Não és fraco porque te doem as costas de tanto suportar o peso que ninguém vê.

Tu sabes quem és. E isso basta.

Mas, por favor, que hoje alguém te diga o que devia ser dito mais vezes:

Obrigada. Por tudo o que és. Por tudo o que fazes. Mesmo quando ninguém repara. Mesmo quando ninguém agradece. Mesmo quando ninguém te valoriza.

Tu importas.

Mesmo quando o mundo te ignora.

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"

Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explo...