Arde o Gerês.
Arde o Alentejo. Arde Trás-os-Montes. Arde o Centro. Arde o país inteiro.
Portugal volta a arder como arde há décadas. Em silêncio, em fúria, em abandono.
Todos os anos, sem falhar, voltamos a ver o mesmo cenário: a terra queimada, o céu tapado de fumo, os rostos cansados dos bombeiros, os animais em fuga, as casas ameaçadas, a esperança calcinada.
Mas não são só árvores que ardem.
São séculos de história vegetal, são percursos de infância, são ervas que curavam, sombras que refrescavam, ribeiros que contavam segredos.
Arde aquilo que somos. Porque nós, portugueses, somos feitos da nossa terra.
E quando ela arde, arde-nos a alma.
Ano após ano, ouvimos as mesmas promessas, os mesmos discursos de circunstância, os mesmos relatórios que não chegam a lado nenhum. Mas a verdade está à vista de todos: Portugal é um país a arder em câmara lenta, tragado pela falta de prevenção, pela má gestão, pela ausência de políticas de ordenamento do território eficazes e pela negligência criminosa.
A culpa não é do calor.
A culpa é da indiferença.
Vivemos num país onde há mais investimento em apagar do que em prevenir.
Onde as aldeias morrem, as matas ficam ao abandono e os terrenos tornam-se labirintos de combustível seco.
Onde quem vive na terra grita há anos por soluções — e ninguém escuta.
E enquanto as chamas avançam, há pessoas a serem retiradas à pressa de casa, há animais carbonizados sem sequer terem tempo de fugir, há vidas inteiras a caberem numa mala feita à pressa.
E há bombeiros que arriscam a própria vida por trocos, por vocação, por amor à farda, porque o Estado não os valoriza como devia.
São eles os heróis que todos aplaudem… mas que poucos defendem quando o fogo se apaga.
Enquanto Portugal arde, as televisões contam hectares, mas ninguém conta as perdas invisíveis:
– os pequenos agricultores que veem tudo desaparecer,
– os animais selvagens que não têm para onde fugir,
– as crianças que crescem a achar normal ver o fumo no verão,
– os nossos avós que olham para os montes e já não os reconhecem.
Dizem que é a natureza.
Mas a natureza não se autodestrói assim.
O que vemos é o reflexo de um país que vira costas ao seu interior, às suas florestas, à sua identidade rural.
É o preço de termos desertificado por dentro e por fora.
O Gerês é só um exemplo maior. Um grito mais fundo.
Mas cada terra que arde em Portugal é uma ferida que devia doer a todos.
Não há litoral que esteja a salvo quando o interior é esquecido.
Não há capital que prospere enquanto o país real se desfaz em cinza.
Talvez um dia, quando já nada restar senão silêncio, alguém olhe para trás e perceba o que perdemos.
Talvez um dia, com sorte, ainda haja algo para salvar.
Mas enquanto esse dia não chega, há quem chore a terra queimada.
Há quem escreva para lembrar.
E há quem lute — mesmo com lágrimas nos olhos — para que Portugal volte a ser verde, vivo e inteiro.

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