sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"


Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explorador, o que enriquece à custa do suor alheio, o culpado de tudo o que corre mal na vida do trabalhador. Mesmo quando paga a tempo, concede folgas ou tenta ser justo, há sempre quem encontre motivos para desconfiar. Mas será que esta visão corresponde à realidade? Ou será, muitas vezes, um reflexo das nossas próprias frustrações e preconceitos?

Do ponto de vista psicológico, esta mentalidade tem raízes fundas. Crescemos a associar figuras de autoridade — pais, professores, chefes — a alguém que manda e limita. Se essa experiência foi negativa, é natural projetarmos no patrão a imagem de quem oprime. A psicologia chama a isto projeção: em vez de enfrentarmos as nossas próprias insatisfações ou escolhas, culpamos quem está numa posição de liderança. Soma-se a isso o viés cultural português, herdeiro de uma história de desigualdade, em que “quem manda explora” se tornou um chavão. Há patrões abusivos, é verdade, mas generalizar e assumir que todos são assim é injusto e contraproducente.

Há, sim, patrões que gritam, humilham e exigem horas e horas de trabalho não remunerado, que fazem dos trabalhadores quase escravos modernos, que acumulam lucros enquanto pagam salários de miséria. Há chefias que vivem na soberba, que confundem autoridade com abuso e respeito com medo. Essa realidade existe e não deve ser escondida ou minimizada.

Mas também há o outro lado, do qual se fala pouco. Há trabalhadores que vivem na lei do mínimo esforço, que passam o dia a ver o relógio, que estão com “cara de frete” desde que entram até que saem, que abandonam as tarefas ou deixam os colegas sobrecarregados porque “não é da sua função”. Há quem veja o patrão em apuros — a lutar para pagar salários ou a enfrentar dívidas — e, em vez de colaborar, só saiba rir na cara dele, como se o fracasso do outro fosse entretenimento. Esta postura é tão tóxica e destrutiva quanto o abuso de poder. Relações laborais justas não se constroem com chefes tiranos, mas também não sobrevivem com empregados que apenas consomem e nunca acrescentam.

E há uma parte da realidade que raramente se discute: a vida do pequeno empresário. Aquela padaria que abre às seis da manhã, o restaurante que fecha à meia-noite, a loja que se mantém aberta mesmo quando as contas estão no vermelho — tudo isso tem um rosto, uma família e muitas renúncias por trás. O patrão pequeno ou médio, longe das grandes fortunas, muitas vezes arrisca o pouco que tem. Investe o próprio dinheiro, põe a casa como garantia, vive com medo do fim do mês. Enquanto se fala do direito ao descanso do trabalhador — um direito essencial —, raramente alguém pergunta: quando descansa o patrão?

As férias de muitos empresários são um mito. Há anos em que não fecham porque “não se pode perder clientes”. Há natais passados a fechar contas, domingos com a cabeça nas dívidas ao banco e noites mal dormidas porque a luz, a segurança social e os salários têm de ser pagos — mesmo quando a faturação não cobre tudo. O lazer, esse conceito de “tempo livre”, muitas vezes resume-se a ver televisão exausto no sofá ou a uma saída apressada que acaba em telefonemas porque algo correu mal na empresa. E a família? Quantos filhos cresceram sem o pai ou a mãe ao jantar porque havia que trabalhar até tarde para que a empresa não fechasse? Quantos cônjuges se ressentem por viverem casados com um negócio e não com uma pessoa?

E depois há a realidade ainda mais dura, quase invisível: quando a empresa corre mal e a insolvência se torna inevitável. Poucos imaginam o que significa para um empresário ter de fechar as portas. Não é só a falência financeira, é a sensação de fracasso pessoal. É ver anos de esforço, noites em claro e dívidas assumidas com a esperança de dar certo, acabarem em tribunal. É enfrentar a vergonha pública, os olhares de quem acha que “se faliu é porque roubou” ou “não soube gerir”. É ver funcionários no desemprego e sentir um peso de culpa, mesmo quando as razões foram uma crise económica, uma pandemia ou simplesmente o mercado a mudar. A insolvência não arruína apenas contas bancárias; arruína autoestima, saúde mental e, muitas vezes, famílias inteiras. Enquanto o trabalhador pode procurar outro emprego, o empresário falido fica com o nome manchado, os bens penhorados e anos de dívidas às costas. E mesmo assim, continua a circular o mito de que “os patrões só sabem explorar e viver à grande”.

Este estigma também é alimentado pelo discurso político. Em Portugal, os partidos têm visões muito diferentes sobre empresas e patrões. À esquerda, PS, BE e PCP focam-se quase exclusivamente na proteção do trabalhador — algo fundamental —, mas muitas vezes com uma retórica que encara o lucro com desconfiança e o patrão como alguém que deve ser controlado, regulado, taxado. O BE e o PCP chegam a defender aumentos pesados de impostos sobre empresas e leis laborais mais rígidas, o que, embora tenha boas intenções sociais, muitas vezes estrangula a pequena empresa que já vive no limite.

À direita, PSD e Iniciativa Liberal defendem menos carga fiscal, incentivos ao investimento e maior flexibilidade. Acreditam que o crescimento económico vem do estímulo à iniciativa privada. O Chega mistura este discurso liberal com uma retórica populista de “os patrões nacionais são heróis explorados pelo Estado”, o que simplifica em demasia uma realidade complexa. A verdade está no equilíbrio: sem empresas viáveis, não há empregos; mas sem regras justas, o trabalhador fica desprotegido.

Ao politizar em excesso esta relação, criam-se trincheiras ideológicas. De um lado, o patrão é visto como explorador; do outro, o trabalhador é acusado de ser preguiçoso ou improdutivo. A vida real, no entanto, não vive nesses extremos. A psicologia organizacional mostra que relações saudáveis nascem do reconhecimento mútuo: o patrão percebe que o trabalhador não é apenas um custo, mas um ativo humano essencial; e o trabalhador entende que o patrão não é um inimigo, mas alguém que arrisca, investe e muitas vezes abdica de si mesmo para manter a empresa de pé.

Enquanto continuarmos a alimentar o mito de que o patrão é sempre o vilão, ficamos presos a um ciclo de ressentimento estéril. É mais fácil reclamar do que propor soluções, mais fácil acusar do que colaborar. Mas a mudança real acontece quando somos capazes de olhar sem preconceitos: há maus patrões, sim, como há maus trabalhadores. Mas há também empresários exaustos e honestos que merecem respeito e reconhecimento.

Talvez o patrão não seja sempre o mau da fita. Talvez, muitas vezes, seja apenas alguém com olheiras, dívidas e um enorme medo de falhar, que trabalha tanto ou mais do que aqueles que dele dependem. Talvez a mudança de mentalidade comece em nós — antes de apontarmos o dedo a quem lidera.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Portugal — O País do “Depois Logo se Vê”

 


Em Portugal, a capacidade de desenrascar é quase um património imaterial. É-nos passada de geração em geração, como se fosse uma qualidade admirável, um traço identitário tão nosso como o bacalhau ou o fado. Crescemos a ouvir histórias de como o tio conseguiu arranjar o carro com um arame e um pedaço de borracha, de como a vizinha resolveu um problema grave de canalização com fita-cola, ou de como o amigo do amigo safou uma situação complicada “à sua maneira”. E, de facto, é inegável que temos uma criatividade inata para improvisar. Mas por trás dessa habilidade quase poética, esconde-se uma verdade que raramente gostamos de admitir: o desenrasca é, muitas vezes, a desculpa perfeita para não planear, não prevenir e não fazer como deve ser. É o disfarce elegante da nossa falta de organização.

Vivemos num país onde o “depois logo se vê” é mais do que uma expressão; é uma filosofia de vida. As obras começam sem um plano definido e prolongam-se indefinidamente até alguém se lembrar de acabar. As empresas funcionam sem estratégia de longo prazo, confiando que, quando surgir um problema, haverá sempre um primo, um cunhado ou um conhecido que “percebe do assunto” e dará um jeito. No setor público, quando falta material, a solução mais natural é pedir ao utente para “trazer de casa, se puder”. Nas escolas, improvisa-se quando os recursos falham; na saúde, remenda-se o que já devia ter sido substituído há anos; e no dia a dia, confiamos no improviso para tudo, desde arranjar um almoço em cima da hora até resolver questões sérias de trabalho.

O problema é que esta cultura de improviso constante nos mantém num ciclo de atraso crónico. Enquanto outros países investem tempo a planear e prever cenários, nós gastamos energia a apagar incêndios — alguns reais, outros metafóricos. É claro que somos resistentes e criativos, mas vivemos constantemente a reagir em vez de agir. E, quando se vive sempre em modo de emergência, não há espaço para crescer de forma estruturada. Pior: acabamos por normalizar o caos e até sentir um certo orgulho nele, como se viver no improviso fosse prova de esperteza e não um sintoma de desorganização.

É preciso entender que o desenrasca não é um superpoder, é um hábito que nos impede de evoluir. Não significa que devamos perder a capacidade de improvisar — essa é, sem dúvida, uma competência valiosa. Mas improvisar deveria ser a exceção, não a regra. O verdadeiro progresso vem do planeamento, da prevenção e da preparação, coisas que ainda associamos a formalidade excessiva ou a “falta de jeito português”. Talvez esteja na hora de percebermos que planear não mata a criatividade; pelo contrário, dá-lhe espaço para existir sem depender do pânico do último minuto. Até lá, continuaremos a viver no país do “depois logo se vê” — sempre a inventar soluções brilhantes, mas sempre a chegar atrasados.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Proteção à Maternidade: Direito das Mães ou Encargo das Empresas?

 


A amamentação é um dos gestos mais naturais e importantes no início da vida de uma criança. A Organização Mundial de Saúde e a Direção-Geral da Saúde recomendam o aleitamento materno exclusivo até aos seis meses e, de forma complementar, até aos dois anos de idade. Estas orientações têm base científica sólida e ninguém de bom senso põe em causa os benefícios que trazem. O problema começa quando este direito se prolonga muito para além do razoável, chegando a idades como quatro, cinco ou seis anos, e quando continua a ser acompanhado de dispensa de trabalho para amamentação. 

O Código do Trabalho, nos artigos 47.º e 48.º, garante à mãe duas horas diárias de dispensa, sem perda de retribuição, durante todo o período de aleitamento, sem definir limite de idade para a criança, bastando para isso a apresentação de um atestado médico. E aqui reside um dos maiores problemas: basta telefonar ao centro de saúde e pedir o documento para prolongar indefinidamente o direito. Não existe fiscalização real para confirmar se a amamentação ainda acontece e, sim, há situações em que essas duas horas são usadas não para alimentar a criança, mas para tratar de assuntos pessoais, ir ao ginásio ou simplesmente reduzir o tempo de trabalho diário porque “dá jeito”.

Esta realidade cria uma enorme injustiça para os colegas que não beneficiam do mesmo direito e que, inevitavelmente, ficam sobrecarregados. São eles que assumem tarefas adicionais, que compensam a ausência dos outros e que lidam com prazos e exigências acrescidas sem qualquer compensação. A desigualdade instala-se nas equipas, criando tensão e desgaste. Mais grave ainda é o facto de o Estado criar o direito, mas não suportar o custo. Quem paga a fatura são as empresas, que continuam a desembolsar o salário integral apesar de terem menos horas de trabalho efetivo e que, muitas vezes, não têm margem financeira para contratar reforços.

Se o objetivo é proteger a maternidade — e deve ser —, então é fundamental que se repense o modelo. Uma alternativa equilibrada seria permitir que as mães de crianças até aos dois anos tivessem um horário reduzido, mantendo a totalidade da sua remuneração, mas com o custo integralmente suportado pelo Estado. Esta medida protegeria o vínculo materno-infantil no período em que mais diferença faz, garantiria que o direito não se prolonga para além do justificado e, ao mesmo tempo, evitaria penalizar financeiramente as empresas e os colegas que ficam no terreno a compensar as ausências. Paralelamente, deveriam ser criados incentivos fiscais para que as empresas possam contratar reforços temporários, assegurando que a carga de trabalho é distribuída de forma justa e sustentável.

O impacto financeiro de manter o sistema atual pode ser significativo, sobretudo em pequenas empresas. Imagine-se uma loja de retalho com quatro funcionárias, sendo que três estão em “período de amamentação” e usufruem das duas horas de dispensa diárias. Considerando um custo horário médio de 8,50 euros, isto representa 51 euros por dia em horas não trabalhadas, o que equivale a 1.122 euros por mês e a 13.464 euros por ano. Este cálculo nem sequer contempla os custos indiretos, como horas extra pagas a outros funcionários, contratação de recursos suplementares, perda de vendas ou quebra de qualidade no atendimento ao cliente. Para uma pequena loja, este montante pode ser a diferença entre ter lucro ou encerrar portas.

Não se trata de retirar direitos às mães, mas sim de garantir que estes são usados com responsabilidade e proporcionalidade. Sem limites temporais claros, sem fiscalização efetiva e com a totalidade do custo a recair sobre quem não pode usufruir do benefício, cria-se um sistema que, em vez de proteger, gera ressentimento e desigualdade. É urgente ajustar a lei, estabelecer critérios alinhados com as recomendações médicas e assegurar que o peso financeiro recai sobre quem define o direito, e não sobre quem já luta para manter o negócio e os postos de trabalho. Só assim se preserva um direito legítimo, evitando que o abuso de alguns acabe por prejudicar todos os demais.

domingo, 10 de agosto de 2025

O Especialista de Pequenos Poderes

O Especialista de Pequenos Poderes é aquele ser humano que acorda de manhã, olha-se ao espelho e pensa: “Hoje vou mudar o mundo… um papel de cada vez.” Não tem ministério, não tem assessores, mas tem algo muito mais temido: um balcão e um carimbo.

Dona Palmira, por exemplo, é a rainha da secretaria da Junta de Freguesia. O cargo oficial? Assistente técnica. Mas, na prática, é Ministra dos Assuntos Internos e Externos, Guardiã do Arquivo Morto e Alta-Comissária dos Carimbos.

— Preciso de uma declaração de residência.

— Vai ter de preencher este formulário, trazer cópia do cartão, do passaporte, do boletim de vacinas e um comprovativo de que não tem dívidas ao talho.

Quando perguntamos porquê, Palmira sorri com aquele ar maternal que antecede a sentença:

— São as regras… (tradução: “Eu decido e não tenho de justificar nada.”)

Depois temos o senhor Amílcar, funcionário da bilheteira municipal, que controla o acesso ao ginásio como se fosse a entrada da NASA.

— Bom dia, queria só renovar a mensalidade.

— Ah, mas o seu atestado médico expirou ontem. Vai ter de fazer outro.

— Mas é só um dia…

— Só um dia?! Isso é o suficiente para o seu coração rebentar na passadeira e eu ter de fazer o relatório.

E não nos podemos esquecer do mais temido de todos: o Presidente da Assembleia de Condomínio. Senhor Aníbal, reformado há 15 anos, mas com uma energia militar para decidir quem pode ou não colocar vasos na varanda.

— A vizinha do 3.º esquerdo tem flores fora do regulamento!

— Mas são só dois vasos…

— DOIS VASOS HOJE, UMA ESTUFA TROPICAL AMANHÃ!

O padrão é sempre o mesmo: quanto mais pequeno o poder, maior o ego. Quanto mais simples a tarefa, mais obstáculos surgem. É uma espécie de lei natural, como a gravidade ou o preço do café.

O pior? É que estes pequenos poderes são altamente contagiosos. Dê a uma pessoa um crachá, uma chave ou um carimbo… e veja a transformação. Em poucos dias, começa a falar com frases como:

— “Isso não é comigo.”

— “Vai ter de falar com a minha colega.”

— “Precisa de preencher o formulário… em triplicado.”

No fim, o Especialista de Pequenos Poderes vive para nos lembrar que a vida não é feita apenas de grandes decisões políticas ou revoluções históricas. Não. A verdadeira batalha é aquela que se trava todos os dias… no balcão da repartição, na portaria do ginásio ou na fila para a senha 237, quando a máquina só vai no número 41.

No fundo, o Especialista de Pequenos Poderes é como um capítulo inevitável da vida: todos vamos cruzar-nos com um, todos vamos praguejar por causa dele… e, se não tivermos cuidado, todos podemos acabar a ser um. Porque basta um balcão, um crachá e um “são as regras” para transformar qualquer mortal num tirano em ponto pequeno.

E a verdade é esta: os grandes tiranos mudam a História. Os pequenos tiranos mudam o seu dia — e, por vezes, arruínam-no com um simples “volte amanhã”.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Quando ser bom não necessita de mandamentos


Há quem não compreenda quando alguém diz que não acredita em religião. Há quem olhe de lado, julgue ou até se assuste. Como se não acreditar num deus ou numa doutrina fosse sinónimo de vazio moral, de caos ou de uma alma perdida à deriva.

Mas e se for precisamente o contrário?

E se for possível — e até desejável — viver com ética, compaixão e sentido de justiça sem qualquer intermediação divina? E se a bondade não precisar de altar, de mandamentos ou de promessas celestiais?

Muitos confundem espiritualidade com religiosidade, como se fossem faces da mesma moeda. Mas não são.

A espiritualidade é íntima. É sentir ligação ao mundo, aos outros, à vida. É ter um sentido de propósito que não vem de um livro sagrado, mas de dentro. É olhar para o universo com reverência, sem precisar de um nome para ele.

Já a religião é uma estrutura. Um conjunto de regras, rituais, hierarquias e dogmas criados por humanos para organizar — e muitas vezes domesticar — essa espiritualidade. Onde há religião, há poder. Onde há poder, há risco de abuso.

E a história é clara: em nome dos deuses, travaram-se guerras, cometeram-se genocídios, queimaram-se mulheres e calaram-se vozes. Tudo em nome da fé. Tudo com selo divino.

Mas antes dos deuses, já havia ética. A moralidade não nasceu nos Dez Mandamentos, nem no Corão, nem nas palavras de Buda. Nasceu no gesto do caçador que partilhou comida com o doente. No instinto da mãe que protege o filho. No grupo que se uniu para cuidar do velho. A empatia é uma ferramenta de sobrevivência. Cuidar do outro foi sempre uma forma de nos protegermos a todos.

A religião veio depois. Organizou. Legislou. Controlou. Criou um “bem” com carimbo, e um “mal” com castigo. E fê-lo tão bem que muitas pessoas ainda hoje acreditam que, sem Deus, não haveria qualquer noção de certo e errado. Como se o medo do inferno fosse o único travão possível à crueldade. Como se a recompensa no céu fosse a única razão para amar.

Mas o bem, para ser verdadeiro, tem de ser livre.

Não pode nascer da chantagem emocional, nem da culpa hereditária, nem do medo de arder por toda a eternidade. O bem nasce da consciência. Da empatia. Da escolha informada de fazer o que está certo mesmo quando ninguém vê. Da recusa em causar dor mesmo que ninguém castigue.

Há quem diga que o mundo sem religião cairia no caos. Mas curiosamente, os países mais laicos, menos religiosos, são também os que apresentam melhores indicadores sociais: mais igualdade, menos violência, maior respeito pelos direitos humanos, maior bem-estar geral. Não são perfeitos — nenhum lugar é — mas provam que é possível ser justo sem rezar. Ser íntegro sem confessar. Ser bom sem acreditar.

E quando olhamos para quem vive sem religião, mas com valores sólidos, percebemos uma coisa: viver sem um “livro de regras” pode ser mais exigente. Porque não há intermediários. Não há desculpas. Não há uma figura superior que perdoa tudo no fim. Há apenas a vida. Os outros. E tu.

És tu que escolhes. És tu que respondes. És tu que defines a tua bússola interna.

E essa liberdade — essa responsabilidade radical — é profundamente ética. Profundamente humana. E, para muitos, mais sagrada do que qualquer liturgia.

Os valores que realmente importam — a integridade, a compaixão, a justiça, a humildade, a liberdade — não precisam de religião. Precisam de prática. Precisam de coerência. Precisam de ação.

E se por acaso existir um deus — um criador, uma consciência superior, uma força cósmica — que ele não se ofenda com quem não acredita. Porque talvez o que realmente conte não seja a reza, mas o respeito. Não seja o dogma, mas o gesto. Não seja a fé, mas o amor posto em prática.

Ser bom não devia ser uma consequência do medo. Devia ser uma escolha feita em plena liberdade. Uma escolha que nasce do coração e não de um catecismo. Uma escolha que se faz todos os dias, em cada palavra, em cada decisão, em cada silêncio.

Eu não acredito em religião. Acredito em valores. Acredito em bondade. E não preciso de mais nada.

Há quem diga que a religião salva. Que dá sentido à vida, que oferece consolo, que orienta os corações. E sim, para muitas pessoas, a fé é uma âncora — uma fonte de esperança, de força interior, de pertença. Não está em causa a fé individual, sincera, vivida no silêncio de quem procura ser melhor.

O problema é outro.

O problema começa quando a religião deixa de ser uma via de transformação pessoal para se tornar uma ferramenta de manipulação. Quando se usa Deus como escudo, a Bíblia como espada e o nome da fé como trampolim para o poder, o lucro ou a impunidade.

E infelizmente, isso não é exceção. É regra disfarçada.

Quantas vezes já vimos líderes religiosos enriquecerem à custa dos fiéis mais vulneráveis? Pedem donativos em nome da salvação, constroem templos com o suor dos outros e vivem em mansões enquanto os seus seguidores mal conseguem pagar a conta da luz. Dizem que é “Deus a abençoar”, mas na verdade é o marketing da culpa a funcionar.

Quantas vezes já vimos políticos a ajoelharem-se em missas com câmaras apontadas, comungarem de mãos postas e citarem versículos bíblicos — apenas para parecerem “bons”? Como se bastasse uma vela acesa para apagar leis injustas, corrupção ou hipocrisia. Usam a religião como verniz moral, mas por baixo há apenas cálculo.

E quantas vezes já vimos famílias a usarem a religião como instrumento de controlo? Impõem regras, castram desejos, fazem da fé um castigo. Dizem às filhas que devem ser submissas “porque assim manda Deus”. Dizem aos filhos que não podem ser quem são “porque está escrito”. E esquecem-se que, se Deus existe, talvez seja amor — não censura.

A religião, usada assim, serve apenas a quem a manipula. Não é espiritualidade. É estratégia. Não é fé. É ferramenta. Um instrumento que justifica privilégios, que impõe silêncio, que alimenta ego.

Mas há um detalhe que escapa a quem usa a fé para se promover: quanto mais a instrumentalizam, mais a desacreditam. Quanto mais a usam como escada, mais a transformam em caricatura. Porque a verdadeira fé não grita, não impõe, não fatura. A verdadeira fé é discreta, humilde, coerente.

Se alguém precisa de dizer constantemente “eu sou muito crente”, “sou muito temente a Deus”, talvez esteja apenas a montar cenário. Porque quem realmente vive a espiritualidade não precisa de rótulo. Vê-se nos gestos, não nas palavras.

E quando a religião é usada para esconder crimes, abusos, violências — então deixa de ser religião. Passa a ser arma.

Não é Deus quem fere. São os homens que O invocam para justificar aquilo que nunca deveria ser justificado.

É tempo de separar fé de manipulação. De deixar de proteger abusadores só porque usam batina ou véu. De denunciar os que falam em nome de Deus, mas agem em nome próprio. De perceber que um bom coração não precisa de púlpito, só de verdade.

Porque quando a religião serve apenas para beneficiar quem a proclama, então deixou de ser sagrada. Passou a ser negócio.

E a fé que é negócio, não salva. Apenas engana.

No fim, tudo se resume a uma escolha: viver de forma íntegra porque se acredita no valor da vida e do outro, ou porque se teme o castigo e se deseja uma recompensa invisível. Há quem encontre na fé um caminho para o bem, e há quem use a fé como desculpa para o mal. E depois, há quem viva sem religião — mas com uma consciência tão lúcida, tão atenta, tão humana — que dispensa intermediários.

A verdadeira medida de um ser humano não está na religião que professa, mas na forma como trata os outros. Não está nos rituais que segue, mas nos valores que pratica. Não está nas palavras que repete, mas nos gestos que realiza, sobretudo quando ninguém está a ver.

Ser bom sem Deus é possível — e, para muitos, é até mais autêntico. Porque vem da escolha, não da imposição. Da empatia, não do medo. Da liberdade, não do dogma.

E quanto àqueles que usam a religião como escudo, palco ou moeda de troca, talvez seja tempo de lhes recordar: a fé que serve apenas o ego não é fé — é estratégia. E o que se vive por interesse perde qualquer valor espiritual.

Se Deus existir — e se for justo — verá mais pureza num gesto bondoso feito em silêncio do que em mil orações recitadas com segundas intenções.

No fim, não é sobre religião. É sobre consciência. Sobre coerência. Sobre humanidade.

E essa, a verdadeira humanidade, nunca precisou de dogma para existir.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Enquanto Portugal Arde...


Arde o Gerês.

Arde o Alentejo. Arde Trás-os-Montes. Arde o Centro. Arde o país inteiro.

Portugal volta a arder como arde há décadas. Em silêncio, em fúria, em abandono.

Todos os anos, sem falhar, voltamos a ver o mesmo cenário: a terra queimada, o céu tapado de fumo, os rostos cansados dos bombeiros, os animais em fuga, as casas ameaçadas, a esperança calcinada.

Mas não são só árvores que ardem.

São séculos de história vegetal, são percursos de infância, são ervas que curavam, sombras que refrescavam, ribeiros que contavam segredos.

Arde aquilo que somos. Porque nós, portugueses, somos feitos da nossa terra.

E quando ela arde, arde-nos a alma.

Ano após ano, ouvimos as mesmas promessas, os mesmos discursos de circunstância, os mesmos relatórios que não chegam a lado nenhum. Mas a verdade está à vista de todos: Portugal é um país a arder em câmara lenta, tragado pela falta de prevenção, pela má gestão, pela ausência de políticas de ordenamento do território eficazes e pela negligência criminosa.

A culpa não é do calor.

A culpa é da indiferença.

Vivemos num país onde há mais investimento em apagar do que em prevenir.

Onde as aldeias morrem, as matas ficam ao abandono e os terrenos tornam-se labirintos de combustível seco.

Onde quem vive na terra grita há anos por soluções — e ninguém escuta.

E enquanto as chamas avançam, há pessoas a serem retiradas à pressa de casa, há animais carbonizados sem sequer terem tempo de fugir, há vidas inteiras a caberem numa mala feita à pressa.

E há bombeiros que arriscam a própria vida por trocos, por vocação, por amor à farda, porque o Estado não os valoriza como devia.

São eles os heróis que todos aplaudem… mas que poucos defendem quando o fogo se apaga.

Enquanto Portugal arde, as televisões contam hectares, mas ninguém conta as perdas invisíveis:

– os pequenos agricultores que veem tudo desaparecer,

– os animais selvagens que não têm para onde fugir,

– as crianças que crescem a achar normal ver o fumo no verão,

– os nossos avós que olham para os montes e já não os reconhecem.

Dizem que é a natureza.

Mas a natureza não se autodestrói assim.

O que vemos é o reflexo de um país que vira costas ao seu interior, às suas florestas, à sua identidade rural.

É o preço de termos desertificado por dentro e por fora.

O Gerês é só um exemplo maior. Um grito mais fundo.

Mas cada terra que arde em Portugal é uma ferida que devia doer a todos.

Não há litoral que esteja a salvo quando o interior é esquecido.

Não há capital que prospere enquanto o país real se desfaz em cinza.

Talvez um dia, quando já nada restar senão silêncio, alguém olhe para trás e perceba o que perdemos.

Talvez um dia, com sorte, ainda haja algo para salvar.

Mas enquanto esse dia não chega, há quem chore a terra queimada.

Há quem escreva para lembrar.

E há quem lute — mesmo com lágrimas nos olhos — para que Portugal volte a ser verde, vivo e inteiro.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Quando o corpo é julgado em vez de ser cuidado


Há dores que se sentem no corpo. E há outras que se instalam mais fundo, na alma — dores que não vêm da doença, mas da forma como somos tratados por tê-la.

Hoje quero falar da discriminação médica contra pessoas com excesso de peso. E quero fazê-lo não com estatísticas frias, mas com uma história real. A minha.

Quando o meu filho mais velho nasceu, eu quase o perdi. E quase me perdi a mim também.

Estive três dias em trabalho de parto. Três dias de dor ininterrupta, de medo crescente, de febre que subia, de delírios que chegavam. Levei dezassete reforços de epidural. Chorei. Desfaleci. Delirei. Mas o que me disseram foi sempre o mesmo: “Ainda não está na altura. É melhor esperar.”

Esperar o quê?

Esperar que o meu corpo falhasse por completo?

Esperar que o meu filho deixasse de responder?

Durante esses dias, o líquido amniótico desapareceu. O meu bebé ficou mais de 24 horas sem essa proteção. E mesmo assim, recusavam fazer-me uma cesariana. Porquê? Porque eu tinha excesso de peso.

A minha dor, o sofrimento fetal, os sinais claros de risco foram todos ignorados, adiados, relativizados.

A única coisa que os médicos viam… era o meu corpo.

Não o meu coração de mãe.

Não o meu bebé em sofrimento.

Apenas o número na balança.

Só quando a situação se tornou insustentável é que me levaram para o bloco. Só quando o risco de morte era real é que decidiram agir. Foi uma cesariana de urgência, feita à pressa, depois de dias em que tudo podia ter sido evitado.

E por muito que hoje olhe para o meu filho e me sinta grata por ele estar cá, há uma ferida que não fecha. A ferida de saber que, para muitos médicos, o meu corpo gordo não merecia pressa. Nem escuta. Nem compaixão.

Essa é a verdade dura que milhares de pessoas vivem todos os dias.

Quando tens excesso de peso, a tua dor é sempre culpa tua.

Se tens dores nas articulações, é o peso. Se tens falta de ar, é o peso. Se tens febre, fadiga, infeções, nódulos, palpitações — tudo é, invariavelmente, explicado pelo peso.

O problema? É que muitas vezes não é o peso. E essa obsessão cega em associar tudo ao corpo visível faz com que se ignore o invisível.

As consequências? Diagnósticos errados. Doenças não detectadas a tempo. Tratamentos inadequados. E uma culpa que se cola à pele como uma sentença. Como se fosse sempre o doente o culpado — nunca o sistema.

Esta forma de discriminação é tão interiorizada que já se tornou “normal”.

Já ouvi médicos a dizer que não vale a pena pedir exames — “porque o problema está à vista.”

Já me disseram para emagrecer… no meio de uma crise de Crohn, onde o meu corpo nem absorvia nutrientes.

Já ouvi risos abafados num bloco. Já senti olhares que me despiram mais do que qualquer bata aberta.

Já vi mães a serem humilhadas em consultas de ginecologia.

Já vi pacientes com lágrimas nos olhos a dizerem: “Sinto que não me veem. Só vêem o meu peso.”

Isto não é medicina.

Isto é violência.

É urgente que falemos sobre isto com seriedade.

É urgente que os profissionais de saúde compreendam que o excesso de peso não pode ser um filtro que distorce todos os sintomas.

É urgente reeducar, reavaliar, repensar a forma como olhamos para corpos que não cabem nos padrões — mas que têm tanto direito à saúde, à escuta e ao cuidado como qualquer outro.

Porque não, nem tudo se resume a emagrecer. E mesmo quando se trata de peso, a abordagem tem de ser feita com respeito, empatia e humanidade.

A medicina não pode ser punitiva.

Não pode ser cínica.

Não pode excluir quem mais precisa dela.

Eu sobrevivi. Mas há quem não sobreviva.

Há quem morra por um diagnóstico adiado, por uma cirurgia recusada, por uma infeção não tratada, por um preconceito disfarçado de recomendação clínica.

Há quem morra por não ser visto.

Por isso escrevo.

Por isso falo.

Por isso não me calo.

Porque se a minha voz conseguir que um médico pense duas vezes antes de julgar um corpo, já terá valido a pena.

Porque se alguém que me lê sentir que não está sozinho, já terei cumprido o meu papel.

E tu que me lês — se já passaste por isto — acredita: o teu valor não se mede em quilos.

A tua dor é real.

O teu corpo merece cuidado.

Tu mereces ser tratada com dignidade.

E se fores profissional de saúde, lembra-te: um corpo não é um castigo. É uma história. É uma vida. É uma mãe, uma filha, um homem, um filho, alguém que só quer ser ouvido e tratado com humanidade.

Vamos conversar. A sério.


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Antes do Fim...


Há uma morte que é injusta, não porque exista, mas porque chega quando ainda havia tanto por acontecer.

É a morte que interrompe e não a que encerra.

Aquela que aparece a meio de uma frase, no meio de um gesto, no princípio de uma mudança.

É a morte que não respeita o compasso da vida, que entra sem ser convidada, sem cerimónia, e pára tudo sem se importar com o que estava em construção.

Fala-se muito da morte como inevitável.

Como uma etapa natural, como uma certeza.

Mas pouco se fala da sua crueldade quando rouba alguém que ainda estava a tentar perceber quem era.

Pouco se diz sobre o que se perde quando alguém morre sem ter tido tempo de ser inteiro.

De amar como merecia, de escolher o seu caminho, de recomeçar onde precisava.

Morrer cedo demais é, talvez, a forma mais brutal de injustiça — não no corpo, mas na alma.

Porque há vidas que, mesmo longas, não são vividas.

E há mortes que, mesmo prematuras, não seriam tão devastadoras se houvesse plenitude antes.

Mas quando alguém morre a meio de um processo de renascimento — quando finalmente começava a encontrar a sua voz, a libertar-se das amarras, a resgatar-se do cansaço — isso fere mais fundo.

Há algo de profundamente trágico numa vida em construção ser interrompida.

Como uma escultura a meio, como um livro com páginas em branco por preencher, como um quadro abandonado na primeira pincelada.

Não é só a ausência da pessoa — é a ausência da sua evolução.

É a história que nunca chegámos a ver acontecer.

É por isso que, quando a morte chega cedo demais, ela transporta não só o corpo, mas também os planos, os sonhos, as reconciliações que estavam prestes a acontecer, as viagens marcadas mas não feitas, os risos prometidos mas não ouvidos.

E então percebemos que vivemos como se houvesse sempre mais tempo.

Mais tempo para amar.

Mais tempo para mudar.

Mais tempo para pedir desculpa.

Mais tempo para sermos felizes, verdadeiramente.

Mas não há. Não há mais tempo.

O tempo que existe é este.

O agora, o presente, o instante em que ainda respiramos.

Quantos de nós vivem como se fossem eternos?

Guardamos o melhor para depois.

Guardamos palavras bonitas para um dia especial.

Guardamos a coragem para quando nos sentirmos preparados.

E esquecemo-nos de que a morte não espera por calendários nem por coragem.

Talvez o verdadeiro desafio da vida não seja sobreviver, mas viver como quem sabe que pode morrer a qualquer momento.

Viver com urgência, mas sem pressa.

Viver com intensidade, mas com presença.

Viver com propósito, mesmo sem certezas.

Porque se há algo pior do que morrer cedo, é morrer sem ter vivido com verdade.

É ter passado por esta vida de forma tímida, adiada, contida, como quem espera autorização para ser feliz.

Como quem acredita que viver é um luxo que só se permite quando tudo está calmo, arrumado, resolvido.

Mas a vida não espera por ordem.

E a morte também não.

No fundo, talvez a questão não seja se morremos cedo ou tarde, mas se morremos depois de ter vivido tudo aquilo que nos fazia sentido viver.

Se dissemos o que precisávamos dizer.

Se amámos como sabíamos amar.

Se nos perdoámos.

Se vivemos alinhados com aquilo que somos e com aquilo que sonhávamos ser.

A morte pode vir quando quiser.

Mas que não nos apanhe a meio de um sonho engavetado.

Que não nos leve com as palavras todas guardadas, com a coragem toda por estrear, com o coração todo por abrir.

Não podemos controlar o fim.

Mas podemos escolher como vivemos antes dele chegar.

Por isso, hoje, se me estás a ler:

Vai.

Diz.

Ama.

Perdoa.

Parte.

Volta.

Sente.

Não esperes pela reforma, pela coragem, pelo momento certo.

Porque a morte não tem relógio, e a vida não tem garantia. E não há tempo. Nunca houve. Só há agora — e muitas vezes não vemos isso. 

E pior do que morrer…

É morrer sem ter vivido. A vida não espera... 

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A Sombra Humana


Desde as primeiras pinturas nas cavernas até aos bombardeamentos em tempo real nas redes sociais, o ser humano parece carregar dentro de si uma inclinação visceral para o conflito. Não apenas o conflito de ideias — esse é saudável, construtivo e necessário à evolução — mas o conflito que destrói, que humilha, que mata. Porquê? O que é que leva o Homo sapiens, com todo o seu neocórtex desenvolvido e discurso civilizado, a perpetuar guerras, a assassinar por ódio ou por ambição, a destruir o outro como se, no fundo, isso fosse um ato de autopreservação?

A resposta não é simples, mas encontra eco na psicologia profunda, nas dinâmicas de grupo, nas teorias do trauma e até na neurobiologia. Carl Jung falava da “sombra” — o lado inconsciente e reprimido da personalidade, onde residem os instintos mais primitivos. A sombra, se não for reconhecida, confrontada e integrada, projeta-se nos outros. E o que se projeta, combate-se. O inimigo, muitas vezes, não é mais do que o espelho de tudo o que não suportamos ver em nós mesmos.

No fundo, odiamos no outro aquilo que não conseguimos aceitar em nós.

A guerra — seja ela entre países, famílias, ou dentro de uma casa — serve muitas vezes como palco onde o indivíduo liberta os seus demónios internos. A psicologia evolutiva sugere que, em tempos antigos, a violência era uma ferramenta de sobrevivência: proteger o clã, garantir recursos, marcar território. Mas se os tempos mudaram, o cérebro primitivo mantém-se, e com ele o sistema límbico preparado para reagir em modo de ataque ou fuga. A raiva, o ódio, o medo… são atalhos emocionais, mais rápidos que o pensamento racional. E onde o medo reina, a empatia morre.

A teoria da despersonalização do inimigo também é relevante. Em contexto de guerra ou violência social, o outro deixa de ser humano. Passa a ser “o terrorista”, “o porco capitalista”, “o comunista nojento”, “a vadia”, “o monstro”. Esta desumanização é uma estratégia inconsciente para permitir que o indivíduo viole os seus próprios princípios morais sem culpa. Não matamos pessoas — matamos coisas que aprendemos a odiar.

Além disso, existe uma dimensão coletiva e quase ritualista da guerra. René Girard falava do “bode expiatório” — a ideia de que as sociedades, quando sobrecarregadas de tensão, escolhem um elemento a sacrificar para restaurar a ordem. Esse “bode” pode ser um grupo étnico, um género, uma religião ou até uma criança na escola. O importante é que o sofrimento de todos seja canalizado para alguém. E depois da catarse, reinicia-se o ciclo.

A isto soma-se a psicologia do poder. O desejo de dominar, controlar, subjugar não nasce apenas da ganância. Muitas vezes nasce da insegurança. Do medo de ser irrelevante. Da ausência de identidade. Há líderes que fazem guerras para não se sentirem vazios. E há homens que matam porque nunca foram olhados com ternura. A dor reprimida, a vergonha internalizada, a raiva herdada tornam-se combustível. A violência torna-se linguagem. E matar, paradoxalmente, torna-se forma de existir.

Mas é importante dizer: a tendência para o conflito não é sinónimo de maldade intrínseca. A psicologia mostra que grande parte da agressividade humana é aprendida, modelada por contextos sociais e reforçada por traumas. Um menino que cresce num ambiente violento aprende que a força impõe respeito. Uma mulher que viveu sob opressão pode repetir a violência na forma de silêncio cúmplice. Os seres humanos não nascem monstros. Mas se forem feridos o suficiente — e se nunca forem amados — podem tornar-se.

A pergunta não é, então, “porque é que as pessoas fazem guerras?”, mas “porque é que não estamos a educar emocionalmente os nossos filhos para não as precisarem?”.

Estamos a criar génios para a tecnologia, mas analfabetos emocionais. Treinamos a mente, mas abandonamos a alma. E quando a alma é ignorada, ela grita. Às vezes grita com bombas. Outras com facas. Outras ainda com palavras que matam mais devagar.

A paz não é ausência de conflito. É presença de consciência. A paz começa quando deixamos de ver o outro como ameaça, e passamos a vê-lo como um espelho. E isso — infelizmente — continua a ser o maior dos desafios humanos.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Amor com fim de utilidade...

Vivemos numa era em que tudo se exige e pouco se agradece. Em nome da correria do dia-a-dia, da pressão do trabalho e das exigências da parentalidade moderna, muitos filhos esqueceram-se de ser… filhos. Esqueceram-se de olhar para os pais como seres humanos com história, com cansaço, com limites e, acima de tudo, com sentimentos.

Hoje em dia, muitos avós deixaram de ser avós para se tornarem criados de luxo. São os babysitters disponíveis 24 horas por dia, os motoristas de serviço, os que cozinham, limpam, passam a ferro, levam, trazem, alimentam, dão banho, fazem o lanche para a escola e, ainda por cima, têm de o fazer com um sorriso nos lábios. Porque se ousarem dizer que estão cansados, que têm dores, ou simplesmente que precisam de tempo para si, são apelidados de egoístas, ingratos ou desactualizados.

E o mais doloroso nisto tudo não é o trabalho em si, é a falta de reconhecimento. É o “obrigado” que nunca chega. É o abraço que não se dá. É o olhar que não vê. É o filho ou filha que só liga para pedir, que só aparece para deixar os netos e desaparecer, como se os pais tivessem a obrigação inata de estarem sempre disponíveis, sempre prontos, sempre prontos a ceder o seu tempo, a sua saúde e até a sua dignidade.

Muitos destes pais, agora avós, já criaram os filhos. Já passaram noites sem dormir, já trabalharam sem folgas, já se sacrificaram para que nada faltasse em casa. Agora, na fase da vida em que deveriam colher alguma tranquilidade, são arrastados para uma nova maratona, muitas vezes sem escolha, sem voz, sem sequer serem consultados.

E o mais irónico? É que, por vezes, são ainda criticados. Porque não fazem como se espera. Porque dizem que estão cansados. Porque têm opinião. Porque não querem dar mais dinheiro. Porque ousam lembrar que também são gente.

Não é raro ver filhos a desvalorizarem os pais. A ridicularizarem a maneira como falam, como pensam, como vivem. A ignorarem o que sentem, como se fossem apenas peças de um tabuleiro familiar cuja única função é facilitar a vida dos outros. E quando a saúde começa a falhar, quando já não conseguem dar tanto, a paciência esgota-se — e com ela, desaparece o respeito.

A verdade é que muitos netos são mais amados pelos avós do que pelos próprios pais — e isso deveria ser motivo de reflexão. Porque há avós que se desdobram para que os netos tenham o que os filhos não conseguem ou não querem dar. E mesmo assim, continuam invisíveis.

Não se trata de dizer que os pais não devam ajudar. Trata-se de equilíbrio, de respeito, de gratidão. Trata-se de lembrar que os avós não são obrigados — e que o que fazem é por amor, não por dever. Que têm o direito de dizer não. Que têm o direito de viver. E que o mínimo que merecem é serem valorizados, não usados.

Há filhos que ainda não perceberam que, um dia, os pais deixam de estar. E nesse dia, não é o tempo que se vai lamentar — é a ausência do que nunca se disse. O “obrigado” que ficou por dar. O “gosto de ti” que foi engolido pelo orgulho. O reconhecimento que nunca chegou.

A vida é feita de ciclos. E um dia, muitos dos que hoje usam os pais como muletas emocionais e logísticas, vão perceber que criaram filhos com o mesmo padrão: o de usar, exigir, desvalorizar.

E talvez aí seja tarde demais para se arrepender.

terça-feira, 8 de julho de 2025

A Tristeza Que Ninguém Vê


 Há uma tristeza que ninguém vê.

Não grita. Não chama a atenção. Não arrasta correntes. Está ali, disfarçada de força, de silêncio, de sorrisos automáticos. Vive nos pequenos gestos que ninguém nota. No “está tudo bem” que se diz por reflexo, para não incomodar, para não parecer frágil, para não explicar o que já ninguém tem paciência para ouvir.

É a tristeza de quem dá tudo e recebe quase nada.

De quem tenta todos os dias ser apoio, ser âncora, ser escudo.

De quem não pede ajuda porque sabe que, mesmo que pedisse, poucos saberiam como ajudar. E mesmo os que sabem, talvez não queiram.

É a tristeza de quem ouve os outros, mas quando fala… sente o silêncio do mundo a bater-lhe no peito.

É a tristeza de quem dá espaço, mas nunca lhe respeitam o seu.

De quem pergunta "como estás?" sem que ninguém devolva a pergunta.

É a tristeza de quem ouve os desabafos alheios e guarda os próprios num cofre sem chave.

De quem se anula para agradar.

De quem ajuda sem esperar nada — mas que, ainda assim, sente a dor da ingratidão.

De quem se cansa… mas continua.

De quem dá… e dá… e dá…

E quase nunca ouve um "obrigada".

Não é que se faça pelas palmas. Mas um obrigado sincero cura. Um gesto de reconhecimento acalma. Um olhar de empatia salva dias.

Mas vivemos numa era onde o ego fala mais alto que a gratidão, onde o “usa e deita fora” aplica-se até a pessoas. Onde o que não brilha no palco da internet… parece não ter valor.

Há sentimentos que ninguém valoriza.

Gentilezas que passam despercebidas.

Sacrifícios que ninguém menciona.

Presenças que só se notam quando desaparecem.

E é por isso que tanta gente boa se cala. Que tanta alma bonita se fecha. Que tantos corações generosos se tornam duros. Porque cansam-se de não caber no mundo que ajudaram a carregar.

Se te reconheces nisto, só te posso dizer uma coisa: o teu valor não depende da visão limitada dos outros.

Não és menos porque não te aplaudem.

Não és fraco porque te doem as costas de tanto suportar o peso que ninguém vê.

Tu sabes quem és. E isso basta.

Mas, por favor, que hoje alguém te diga o que devia ser dito mais vezes:

Obrigada. Por tudo o que és. Por tudo o que fazes. Mesmo quando ninguém repara. Mesmo quando ninguém agradece. Mesmo quando ninguém te valoriza.

Tu importas.

Mesmo quando o mundo te ignora.

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"

Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explo...