Há uma morte que é injusta, não porque exista, mas porque chega quando ainda havia tanto por acontecer.
É a morte que interrompe e não a que encerra.
Aquela que aparece a meio de uma frase, no meio de um gesto, no princípio de uma mudança.
É a morte que não respeita o compasso da vida, que entra sem ser convidada, sem cerimónia, e pára tudo sem se importar com o que estava em construção.
Fala-se muito da morte como inevitável.
Como uma etapa natural, como uma certeza.
Mas pouco se fala da sua crueldade quando rouba alguém que ainda estava a tentar perceber quem era.
Pouco se diz sobre o que se perde quando alguém morre sem ter tido tempo de ser inteiro.
De amar como merecia, de escolher o seu caminho, de recomeçar onde precisava.
Morrer cedo demais é, talvez, a forma mais brutal de injustiça — não no corpo, mas na alma.
Porque há vidas que, mesmo longas, não são vividas.
E há mortes que, mesmo prematuras, não seriam tão devastadoras se houvesse plenitude antes.
Mas quando alguém morre a meio de um processo de renascimento — quando finalmente começava a encontrar a sua voz, a libertar-se das amarras, a resgatar-se do cansaço — isso fere mais fundo.
Há algo de profundamente trágico numa vida em construção ser interrompida.
Como uma escultura a meio, como um livro com páginas em branco por preencher, como um quadro abandonado na primeira pincelada.
Não é só a ausência da pessoa — é a ausência da sua evolução.
É a história que nunca chegámos a ver acontecer.
É por isso que, quando a morte chega cedo demais, ela transporta não só o corpo, mas também os planos, os sonhos, as reconciliações que estavam prestes a acontecer, as viagens marcadas mas não feitas, os risos prometidos mas não ouvidos.
E então percebemos que vivemos como se houvesse sempre mais tempo.
Mais tempo para amar.
Mais tempo para mudar.
Mais tempo para pedir desculpa.
Mais tempo para sermos felizes, verdadeiramente.
Mas não há. Não há mais tempo.
O tempo que existe é este.
O agora, o presente, o instante em que ainda respiramos.
Quantos de nós vivem como se fossem eternos?
Guardamos o melhor para depois.
Guardamos palavras bonitas para um dia especial.
Guardamos a coragem para quando nos sentirmos preparados.
E esquecemo-nos de que a morte não espera por calendários nem por coragem.
Talvez o verdadeiro desafio da vida não seja sobreviver, mas viver como quem sabe que pode morrer a qualquer momento.
Viver com urgência, mas sem pressa.
Viver com intensidade, mas com presença.
Viver com propósito, mesmo sem certezas.
Porque se há algo pior do que morrer cedo, é morrer sem ter vivido com verdade.
É ter passado por esta vida de forma tímida, adiada, contida, como quem espera autorização para ser feliz.
Como quem acredita que viver é um luxo que só se permite quando tudo está calmo, arrumado, resolvido.
Mas a vida não espera por ordem.
E a morte também não.
No fundo, talvez a questão não seja se morremos cedo ou tarde, mas se morremos depois de ter vivido tudo aquilo que nos fazia sentido viver.
Se dissemos o que precisávamos dizer.
Se amámos como sabíamos amar.
Se nos perdoámos.
Se vivemos alinhados com aquilo que somos e com aquilo que sonhávamos ser.
A morte pode vir quando quiser.
Mas que não nos apanhe a meio de um sonho engavetado.
Que não nos leve com as palavras todas guardadas, com a coragem toda por estrear, com o coração todo por abrir.
Não podemos controlar o fim.
Mas podemos escolher como vivemos antes dele chegar.
Por isso, hoje, se me estás a ler:
Vai.
Diz.
Ama.
Perdoa.
Parte.
Volta.
Sente.
Não esperes pela reforma, pela coragem, pelo momento certo.
Porque a morte não tem relógio, e a vida não tem garantia. E não há tempo. Nunca houve. Só há agora — e muitas vezes não vemos isso.
E pior do que morrer…
É morrer sem ter vivido. A vida não espera...

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