terça-feira, 3 de junho de 2025

Ainda Espero que o Telefone Toque

 

Perder o meu pai foi morrer um pouco também. Foi ver o mundo virar do avesso sem aviso prévio, sem preparação possível. O meu pai era o meu norte e o meu sul, o meu mapa mundo. O meu ponto de referência em dias bons e o meu farol em noites escuras. Era o apoio incondicional, a voz firme e doce que dizia: "Filha minha não desiste. És mais forte que qualquer homem que eu conheça." E eu acreditava. Porque ele acreditava em mim.

Morreu de repente, em agosto de 2023. Sem tempo para despedidas, sem tempo para um último abraço, um último beijo, uma última discussão até. Fiquei sem chão, órfã sem o ser. De repente, herdei um papel que não pedi: o de guardiã dos seus últimos desejos, a mestre de cerimónias de uma despedida que me desfez por dentro. Fiz o que tinha de ser feito, porque ele merecia tudo, porque confiou em mim para além da vida, mas fiz em pedaços, com o coração em estilhaços e a alma ausente.

Hoje, continuo à espera que o telefone toque. Que do outro lado venha aquela voz que me ralhava por não ligar, por andar sempre tão ocupada. Continuo à espera do abraço forte com vontade, daquele beijo que picava mas que dizia mais que mil palavras. Até das refiladelas tenho saudades, das broncas, dos "não te metas nisso" que sempre vinham seguidos de um "mas se precisares, estou aqui".

A filha dele continua a ser forte. Mas perdeu-se de si mesma naquele agosto. Continua a ser a “idiota” com a cabeça cheia de ideias e planos, mas agora não sabe por que ponta pegar. Continua a defender aquilo em que acredita, mas há dias em que se pergunta em silêncio: e se desistisse só desta vez? E no entanto, recomeça. Porque ele não a ensinou a parar. Ensinou-a a resistir, a tentar outra vez, mesmo quando tudo parece perdido.

Há dores que o tempo não apaga. Há ausências que ninguém preenche. O meu pai era a minha âncora. E agora ando à deriva. Mas se me escutar com atenção, ainda o ouço a dizer: vai, filha, tu consegues. E vou. Meio perdida, meio sem saber quem sou sem ele, mas vou.

Porque ser filha dele é a minha força. E o meu luto é também uma homenagem. A quem me ensinou a não desistir... 

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