domingo, 8 de junho de 2025

Criatividade cansada: o bloqueio da mulher que pensa demais

Dizem que quem tem ideias nunca se perde. Que a criatividade é um dom, uma força, uma chama que ilumina os cantos escuros da rotina. Dizem. Mas esquecem-se de avisar que pensar demais também cansa. E que às vezes, essa tal criatividade não morre — apenas se esconde atrás de uma fadiga que não se vê.

Há dias em que tenho dez ideias antes de sair da cama. Histórias que podiam ser livros. Frases que dariam bons inícios. Personagens que vivem dentro de mim a pedir palco. Mas depois levanto-me, ponho a máquina do café a trabalhar, vejo os pratos da noite anterior na pia, lembro-me dos prazos, dos filhos, do cão, das contas, do corpo que dói, da lista do supermercado e pronto. A arte evapora-se. Fica só uma mulher exausta a olhar para o ecrã.

Chama-se bloqueio criativo, dizem.

Mas eu acho que é mais que isso. É um apagão provocado por excesso de luz. Por pensar demais. Por sentir em demasia. Por tentar fazer sentido de tudo. A mulher que pensa demais vive a rebentar de ideias, mas sufoca porque não tem onde pousá-las em paz.

Não é falta de inspiração. É excesso de responsabilidade.

Não é falta de talento. É ausência de tempo emocional.

Não é preguiça. É sobrevivência.

E o mais curioso é que ninguém percebe. Porque por fora continuamos a funcionar. Respondemos a e-mails, vamos às reuniões, ajudamos com os trabalhos de casa, sorrimos quando perguntam se está tudo bem. Por dentro, no entanto, a fábrica das ideias está em greve. A alma fecha para obras e não avisa.

Mas hoje decidi escrever mesmo assim.

Com cansaço, com dúvidas, com essa vozinha cá dentro que diz “isto não presta para nada”. Porque talvez o maior acto criativo seja continuar — mesmo quando não apetece, mesmo quando não flui. Talvez criar, para mulheres como eu, seja uma espécie de teimosia emocional. Uma luta entre o que a cabeça diz e o que o coração grita.

E se tu, que lês isto, também te sentes assim — só quero que saibas: não estás sozinha. A tua criatividade não desapareceu. Só está cansada. Como tu.

Dá-lhe tempo. E dá-te colo.

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