Vivemos numa era de grande empatia teórica. Teórica, sublinho. Fala-se muito sobre “sair da bolha”, “calçar os sapatos do outro”, “ter mais compaixão”. Multiplicam-se os slogans, os posts inspiracionais, as frases partilhadas com fundos florais e hashtags. Mas na prática? Na prática, a maior parte das pessoas não consegue sequer estar no seu próprio lugar. Como é que se há-de colocar no lugar de alguém?
A verdade é que para nos colocarmos no lugar do outro, primeiro é preciso sabermos onde nós estamos. Quem somos. O que sentimos. O que nos move. O que nos dói. O que carregamos. E isso exige um nível de consciência que assusta. Porque é muito mais fácil julgar o outro do que olhar para dentro. Muito mais fácil apontar o dedo do que assumir o desconforto de perceber que, afinal, também erramos, também fugimos, também nos perdemos de nós mesmos.
Quantas pessoas conheces que vivem em permanente conflito com o seu reflexo? Gente que anda por aí a pedir aos outros que lhes validem as emoções que nem sabem nomear. Pessoas que vivem papéis que não escolheram, a representar vidas que não sentem. Que se definem pela profissão, pela relação que têm, pelo carro que conduzem ou pela roupa que vestem — e que, se lhes tirassem isso tudo, não saberiam quem são.
É aqui que está o problema: quem não se conhece, não se entende. E quem não se entende, não se tolera. E quem não se tolera, está constantemente à procura de alguém para acusar — porque é mais cómodo externalizar o caos do que assumir que ele mora dentro de si.
Fala-se muito de empatia como se fosse um dom. Não é. A empatia é um exercício de humildade e presença. E para que ela aconteça, é preciso primeiro fazer um outro exercício bem mais difícil: o da autoacolhimento. É preciso conseguir estar connosco, com as nossas falhas, as nossas feridas, as nossas verdades inconvenientes. Porque só quem sabe o peso que carrega, é capaz de respeitar o peso que o outro traz às costas.
Mas isso dá trabalho. Dá muito trabalho. Exige silêncio. Auto-observação. E, pior do que tudo, exige deixar de controlar a narrativa. Exige parar de justificar tudo com o comportamento dos outros e assumir que, muitas vezes, somos nós os arquitectos da nossa própria prisão.
Talvez por isso haja tanto ruído nas redes sociais. Tanta opinião. Tanta indignação. Tanta gente a gritar que está do lado certo da história, mesmo quando não entende a história que vive em si. Porque gritar é mais fácil do que escutar. Julgar é mais fácil do que compreender. E fugir para o telemóvel é infinitamente mais fácil do que encarar o espelho.
Colocar-se no lugar do outro só é possível quando já se fez o percurso duro de voltar ao seu próprio lugar. E quantas pessoas conheces que realmente já voltaram? Que já limparam a casa emocional onde vivem? Que fizeram as pazes com a infância, com os traumas, com os silêncios que doem e com os sonhos que enterraram?
Não se trata de virar santos, nem de desculpar tudo e todos. Mas sim de admitir que, se nem sempre conseguimos ser justos connosco, como esperar que o sejamos com o outro? Se nos negamos tantas vezes o descanso, a escuta, o perdão, como vamos oferecer isso aos demais?
Talvez a questão nem seja “colocar-se no lugar do outro”. Talvez o mais honesto seja perguntar: já consegues ocupar o teu?
Porque quem está inteiro em si, já não precisa provar nada a ninguém. E é aí, só aí, que a empatia acontece: quando já não se julga como defesa, mas se compreende como escolha..

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