terça-feira, 17 de junho de 2025

O Vírus Chamava-se Ódio


Durante anos fomos sendo lentamente empurrados para as margens uns dos outros. Mas foi com a chegada da pandemia de COVID-19 que essa separação ganhou velocidade, intensidade e uma nova forma: o ódio. Não o ódio declarado, com bandeira e grito de guerra. Nada disso. Um ódio subtil, mas constante. Um veneno de dose diária, disfarçado de opinião forte, de preocupação legítima, de defesa da liberdade. Um ódio que cresceu como erva daninha entre o medo, a desinformação e o isolamento.

Em março de 2020, o mundo parou. Literalmente. Fechámos portas, janelas, fronteiras e abraços. E começámos a olhar para o outro como ameaça. O outro era o potencial contagiado. O irresponsável que não lavava as mãos. O assintomático que podia estar a matar os nossos pais sem saber. A base da convivência humana — a confiança — desfez-se, e em seu lugar brotou a suspeita. E da suspeita ao julgamento, e do julgamento ao ódio, foi um passo curto e silencioso.

Ao princípio, ainda havia compaixão. Aplausos às janelas, cestos de compras para os vizinhos mais velhos, palavras de ânimo nas redes sociais. Mas à medida que o tempo passava e a fadiga pandémica se instalava, o discurso mudava. Os que não queriam ser vacinados tornaram-se os vilões. Os que se vacinaram passaram a ser os manipulados. Cada um com a sua verdade inegociável, cada um agarrado à sua trincheira.

A pandemia não criou o ódio, mas revelou a sua infraestrutura. Estava cá tudo. O ressentimento de classe, o preconceito racial, a polarização política, a raiva mal digerida contra o sistema, contra os ricos, contra os pobres, contra quem pensa diferente. O vírus apenas acendeu a luz de presença que mostrou o que cada um andava a esconder: o desconforto com o outro.

As redes sociais, já de si saturadas de ruído, tornaram-se ainda mais hostis. Criaram-se castas digitais: os do "acorda, povo!" contra os do "sigam a ciência!". Os que denunciavam qualquer medida como tirania contra os que exigiam regras mais duras para travar o contágio. De repente, a empatia passou a ser sinal de fraqueza. O diálogo tornou-se obsoleto. E o contraditório, uma ofensa pessoal.

A par do vírus, viralizou-se também a arrogância. A pandemia fabricou peritos em tempo recorde: virologistas de sofá, constitucionalistas de Facebook, epidemiologistas do WhatsApp. Pessoas sem qualquer formação académica na matéria, mas com uma convicção inabalável — mais uma vez, confundida com verdade.

Pior: começámos a odiar quem não estava a sofrer como nós. Quem conseguia trabalhar remotamente enquanto outros perdiam o emprego. Quem dizia que até estava a gostar da pausa quando outros enfrentavam a depressão. Quem dizia que a escola online funcionava quando outros não tinham sequer acesso à internet. Começámos a odiar quem sorria quando só conseguíamos chorar. E isto foi, talvez, o mais humano de todos os erros: não aceitarmos a dor dos outros quando não era igual à nossa.

O ódio ganhou novas formas. Passou a ser mais sofisticado, mais polido, mais "legítimo". Tornou-se politicamente rentável. Alguns líderes souberam lê-lo e explorá-lo. Apareceram os salvadores, os que dizem "o povo está farto", os que prometem ordem, castigo, exclusão. E o povo ouviu. A raiva encontrou porta-voz. E passou a vestir gravata.

No pós-pandemia, quando finalmente saímos à rua, encontrámo-nos diferentes. Muitos estavam mais fechados, menos tolerantes, mais impacientes. A convivência tornou-se frágil. O trânsito explodia com buzinadelas. Os cafés enchiam-se de olhares desconfiados. As discussões tornaram-se mais rápidas, mais violentas. Bastava uma palavra mal colocada para o sangue ferver.

Hoje, talvez já nem nos apercebamos de como estamos mais duros. Como passámos a usar o sarcasmo como defesa e a indiferença como escudo. Como, no fundo, ainda vivemos em modo pandemia emocional: fechados em nós, com medo de confiar, sempre prontos a atacar.

Este é o maior legado não falado da COVID-19: o crescimento de uma cultura de hostilidade. E é também o mais perigoso. Porque o vírus que nos fechou em casa tinha prazo. Mas o ódio que nos fechou por dentro continua a circular — sem máscara, sem distanciamento, sem cura à vista.

A pergunta, agora, é: queremos continuar assim?

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