sábado, 14 de junho de 2025

O Maravilhoso Mundo dos Narcisistas (ou como viver com uma estrela de cinema sem bilhete de saída)


Conviver com um narcisista é, no mínimo, uma experiência espiritual. Não no sentido elevado da palavra, claro. É mais uma peregrinação ao inferno com paragem obrigatória no Museu das Egolatrias.

Eles não entram numa sala. Eles acontecem numa sala. E a sala que não retribui com uma ovação de pé está automaticamente desclassificada da sua existência. A culpa é tua, sempre tua. Se a planta morreu, se o cão mordeu alguém, se há guerra no Médio Oriente... foste tu que não deste apoio emocional suficiente à divindade doméstica.

O narcisista tem um talento inato para ser a vítima em qualquer situação. Podias estar em chamas e ele queixar-se de que o fumo lhe está a irritar os olhos. Tinhas um acidente? Ele lembra-se imediatamente de quando partiu uma unha há três anos e ainda não recuperou emocionalmente.

Amor próprio? Eles têm tanto que não sobra espaço para ti. Aliás, o narcisista não ama — admira-se. Diariamente. Com devoção. São como um espelho com pernas que exige likes presenciais. Um feed de Instagram em carne e osso, que precisa constantemente de validação, mas nunca valida ninguém. A única empatia que praticam é por si próprios — quando se imaginam em cenários de sofrimento que nunca viveram, mas que descrevem com lágrimas nos olhos e voz trémula. Oscar garantido.

Não confundas charme com caráter. O narcisista é sedutor em público e tirano em privado. Conquista-te com palavras doces e devora-te com críticas azedas. E se por acaso fores tu quem tem sucesso… prepara-te. De repente, foste ajudado por ele, foste inspirado por ele, foste praticamente construído por ele. Um milagre ambulante da sua influência divina.

Gaslighting? É a língua materna. Vais duvidar de ti, da tua sanidade, e eventualmente da gravidade, porque o narcisista convence-te de que és tu que flutuas nos problemas. Eles? Eles só tentam "ajudar-te a seres melhor". A melhor versão de ti é a versão que se cala, aceita e aplaude.

E atenção: nunca, mas nunca, critiques um narcisista. É como cuspir num espelho de cristal. Vais ouvir um discurso tão carregado de ultraje que vais começar a pensar que assassinaste um panda bebé à frente do Papa.

Mas a verdadeira arte do narcisista é a saída dramática. Quando já te esvaziaram emocionalmente, socialmente e às vezes financeiramente, fazem questão de te abandonar como se estivessem a oferecer-te um presente. “Estou a fazer isto por ti”, dizem, enquanto sobem para o altar do martírio emocional onde são, simultaneamente, a vítima, o herói e o messias.

No fim, deixaram-te mais magro emocionalmente, mais cínico, e com uma nova alergia: elogios demasiado entusiasmados vindos de pessoas que falam de si próprias na terceira pessoa.

Moral da história? Se parecer demasiado brilhante, demasiado encantador, demasiado perfeito… não te aproximes. É um espelho de circo. E os espelhos distorcem. Às vezes, até a alma.

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