Conviver com um narcisista é, no mínimo, uma experiência espiritual. Não no sentido elevado da palavra, claro. É mais uma peregrinação ao inferno com paragem obrigatória no Museu das Egolatrias.
Eles não entram numa sala. Eles acontecem numa sala. E a sala que não retribui com uma ovação de pé está automaticamente desclassificada da sua existência. A culpa é tua, sempre tua. Se a planta morreu, se o cão mordeu alguém, se há guerra no Médio Oriente... foste tu que não deste apoio emocional suficiente à divindade doméstica.
O narcisista tem um talento inato para ser a vítima em qualquer situação. Podias estar em chamas e ele queixar-se de que o fumo lhe está a irritar os olhos. Tinhas um acidente? Ele lembra-se imediatamente de quando partiu uma unha há três anos e ainda não recuperou emocionalmente.
Amor próprio? Eles têm tanto que não sobra espaço para ti. Aliás, o narcisista não ama — admira-se. Diariamente. Com devoção. São como um espelho com pernas que exige likes presenciais. Um feed de Instagram em carne e osso, que precisa constantemente de validação, mas nunca valida ninguém. A única empatia que praticam é por si próprios — quando se imaginam em cenários de sofrimento que nunca viveram, mas que descrevem com lágrimas nos olhos e voz trémula. Oscar garantido.
Não confundas charme com caráter. O narcisista é sedutor em público e tirano em privado. Conquista-te com palavras doces e devora-te com críticas azedas. E se por acaso fores tu quem tem sucesso… prepara-te. De repente, foste ajudado por ele, foste inspirado por ele, foste praticamente construído por ele. Um milagre ambulante da sua influência divina.
Gaslighting? É a língua materna. Vais duvidar de ti, da tua sanidade, e eventualmente da gravidade, porque o narcisista convence-te de que és tu que flutuas nos problemas. Eles? Eles só tentam "ajudar-te a seres melhor". A melhor versão de ti é a versão que se cala, aceita e aplaude.
E atenção: nunca, mas nunca, critiques um narcisista. É como cuspir num espelho de cristal. Vais ouvir um discurso tão carregado de ultraje que vais começar a pensar que assassinaste um panda bebé à frente do Papa.
Mas a verdadeira arte do narcisista é a saída dramática. Quando já te esvaziaram emocionalmente, socialmente e às vezes financeiramente, fazem questão de te abandonar como se estivessem a oferecer-te um presente. “Estou a fazer isto por ti”, dizem, enquanto sobem para o altar do martírio emocional onde são, simultaneamente, a vítima, o herói e o messias.
No fim, deixaram-te mais magro emocionalmente, mais cínico, e com uma nova alergia: elogios demasiado entusiasmados vindos de pessoas que falam de si próprias na terceira pessoa.
Moral da história? Se parecer demasiado brilhante, demasiado encantador, demasiado perfeito… não te aproximes. É um espelho de circo. E os espelhos distorcem. Às vezes, até a alma.

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