segunda-feira, 16 de junho de 2025

O Teatro das Promessas


Abrimos o telemóvel e, num scroll inocente, somos confrontados com uma realidade paralela onde todos parecem ricos, felizes, focados, curados, sarados e a trabalhar diretamente de uma piscina com borda infinita. A culpa, dizem-nos, é nossa. Porque ainda não comprámos aquele curso milagroso de produtividade, não fizemos a mentoria de uma qualquer iluminada digital ou, pior ainda, porque ainda não jogámos o novo jogo de telemóvel que já fez "milhares de pessoas milionárias". Sim, claro. Milhares de pessoas. Milionárias. Com um jogo onde se alinham frutas.

Vivemos no apogeu das promessas fáceis. Tudo é possível, desde que cliques, pagues ou partilhes. Jogos que supostamente te rendem dinheiro real, mas que só te enchem a caixa de entrada de spam e anúncios. Cursos sobre “viver do teu propósito” dados por quem nem sabe conjugar verbos. Mentorias conduzidas por pessoas que há um ano estavam a partilhar vídeos a chorar no carro e que hoje se intitulam “estrategas de mentalidade”. E tu, pobre mortal, acreditas. Porque estás cansada. Porque queres mesmo acreditar. Porque te disseram que a culpa de estares exausta e perdida é tua. E quem te disse isso foi alguém que tirou três frases de um livro de autoajuda e as escreveu num post com flores ao fundo.

A verdade é que o novo negócio das redes sociais não é vender produtos. É vender esperança. Vender sentido. Vender cura. Vender dinheiro. Prometer transformação a troco de um Mbway ou de três prestações mensais. Só que não há transformação. Há sim um PDF de 10 páginas mal escritas, vídeos gravados ao telemóvel e frases do Pinterest ditas em tom de revelação espiritual. E se não funcionar, se continuares ansiosa, confusa, falida ou perdida? A culpa é tua, claro. Porque não te entregaste ao processo. Porque não acreditaste o suficiente. Porque não pagaste o módulo avançado.

Até o Bitcoin, que nasceu como símbolo de descentralização e liberdade, virou produto de engodo. Não pela moeda em si, mas pelos evangelistas de Instagram que juram que enriqueceram a dormir, mas passam o dia a tentar vender-te um curso sobre como fazer o mesmo. Os sinais mágicos do Telegram, os gráficos, os vídeos de Lamborghinis alugados — tudo serve para pintar o quadro de uma vida de abundância que só existe porque alguém continua a comprar a ilusão.

Estamos rodeados de palcos. Cada perfil é uma personagem. Cada história um enredo. E nós, na ânsia de também fazer parte, de também chegar lá, de também pertencer, vamos pagando bilhete para um espetáculo onde o final já está escrito: alguém lucra, nós aplaudimos — e continuamos sentados no mesmo lugar.

Acordar neste mundo de promessas pode ser desconfortável. Mas continuar a viver nele pode sair ainda mais caro.

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