Ser obesa não dói. O que dói é tudo o que os outros acham que sabem sobre mim por causa do meu corpo. O que dói é o olhar que se desvia, o riso abafado, a cadeira que não chega, a médica que me trata como um diagnóstico ambulante: gordura. A vida numa sociedade obcecada com o magro é uma maratona onde as pessoas gordas nem sequer são chamadas à linha de partida — e, quando o são, é para que sirvam de exemplo do que “não se deve ser”.
Mas o peso que mais dói nem sequer é físico. É psicológico. É social. É aquele que me colocam em cima todos os dias, mesmo sem palavras.
Há a discriminação óbvia — aquela que te fecha portas no trabalho porque “não tens o perfil”, como se competência tivesse um perímetro abdominal máximo. Entrevistas onde nunca se chega à segunda fase. De promoções que são para “quem representa melhor a empresa”. De colegas que fazem piadas quando sais da sala. De cargos onde esperam alguém que “se cuide”, mas ninguém cuida de perceber o que isso quer dizer.
E depois há a exclusão silenciosa, ainda mais corrosiva. Não és convidada para o grupo de amigas que vai à praia porque “não tens bem o espírito”. Ficas de fora da foto porque “não cabemos todas no enquadramento”. Não te chamam para certos planos porque “não vais gostar”, ou “aquilo não é para ti”, ou simplesmente… porque não. És a amiga que ouve, mas que raramente é incluída. A companhia útil, mas invisível.
E quando apareces, às vezes até notas o desconforto disfarçado. A vergonha silenciosa de quem anda contigo mas caminha três passos à frente. Aquela hesitação na apresentação: “Esta é a minha amiga... ela é muito engraçada!” Engraçada. Nunca bonita. Nunca “olhem para ela”. Nunca protagonista. Porque parece que um corpo grande só pode existir se compensar com simpatia, humor ou talento. Nunca por si só.
Ir às compras é um campo minado. Entras numa loja com esperança e sais com um nó na garganta. “Só temos até ao XL, mas talvez te sirva um casaco oversize da secção masculina”. Secção de tamanhos grandes? Um canto escuro ao fundo da loja, com padrões deprimentes, cortes sem forma e uma paleta de cores digna de uma fila de espera no centro de saúde. Porque o mundo não espera que sejas vaidosa. Espera que tentes desaparecer.
E tu tentas. Tentas tantas vezes.
Tentaste fazer dieta, tentaste fazer exercício, tentaste caber num molde onde simplesmente não encaixas. Tentaste ser discreta, ocupando menos espaço emocional do que o teu corpo já ocupa fisicamente. Tentaste ser prestável, útil, simpática, divertida — para que gostassem de ti apesar do teu corpo. E tentaste odiar-te o suficiente para que os outros não precisassem de o fazer. Mas nunca chega. Nunca chegou.
E, ao mesmo tempo, todos acham que podem opinar sobre ti. O teu corpo é assunto público. “Por que é que não operas?” “Tens um rosto tão bonito, era só perderes uns quilinhos.” “Estás a estragar a tua saúde.” Curiosamente, a preocupação nunca é com a tua saúde mental, com a tua solidão, com o teu cansaço. Só com aquilo que os olhos dos outros têm de suportar. Só com o incómodo estético de teres a ousadia de existir fora do padrão.
Mas a verdade é que não foi o meu corpo que me magoou. Foram os outros. Foram os olhares. As ausências. As palavras sussurradas. As piadas de mau gosto. A forma como o mundo se organiza para excluir os corpos gordos — desde as cadeiras nos restaurantes às amizades seletivas, dos provadores minúsculos aos amores impossíveis porque “não sou o teu tipo, mas és ótima pessoa”.
Ser obesa não me impede de viver. Mas impede-me de ser tratada como se a minha vida tivesse o mesmo valor que a de alguém magro.
E no meio disto tudo, o mais cruel é que somos ensinadas a culpar-nos. A achar que o problema somos nós. Que temos de mudar, que temos de fazer por merecer. Que temos de sofrer caladas até sermos dignas de um espaço. De amor. De respeito. De aceitação.
Mas talvez o mundo tenha mesmo é de mudar. De deixar de medir valor em quilos. De parar de infantilizar, de silenciar, de isolar quem não cabe nas expectativas alheias. De perceber que há mais beleza num corpo com história, do que numa norma vazia.
Porque não é o corpo que pesa.
É o preconceito que os outros nos colocam em cima dele.
E esse peso, garanto-te, não se perde com dieta.

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