quarta-feira, 11 de junho de 2025

Ode ao Café - esse Salvador

Há prazeres discretos que sustentam os dias. Não fazem alarido, não exigem reconhecimento público, não precisam de justificações. Limitam-se a estar ali, como um segredo entre o corpo e a alma. O café é um desses prazeres. Elogiá-lo não é um acto de banalidade: é um tributo ao ritual que nos devolve o eixo, à pequena pausa que suspende o ruído do mundo e nos permite, por breves instantes, existir com mais intenção.

O café é mais do que uma bebida. É um instante. Um compasso. Uma espécie de ponte invisível entre o que somos e o que ainda vamos ser nesse dia. Há quem o beba a correr, como quem se injeta coragem líquida antes de enfrentar o caos. Outros preferem saboreá-lo devagar, como quem escuta o tempo em silêncio. Seja como for, o café cumpre a sua missão: acorda-nos o corpo, mas, sobretudo, acorda-nos por dentro.

Há algo de profundamente democrático no café. Serve o operário e o doutor, o poeta e o contabilista, a dona de casa e o estudante exausto. É barato ou sofisticado, instantâneo ou tirado a preceito. Mas nunca perde a sua função de conforto. É o abraço quente de um velho amigo. A desculpa perfeita para uma conversa adiada. O início informal de muitos amores. E o fecho respeitoso de muitas despedidas.

E depois há o cheiro. Esse aroma inconfundível que nos conduz pelas memórias como uma bússola afetiva. O café tem o dom de nos fazer sentir em casa, mesmo nos dias em que tudo parece fora do lugar. Um café bem tirado devolve-nos uma espécie de dignidade. Como se dissesse: “ainda estás aqui, ainda podes tentar outra vez”.

Num mundo que acelera sem parar, onde tudo se faz com urgência e pouca alma, o café insiste na pausa. Convida à contemplação. Exige temperatura certa, tempo certo, medida certa. E, talvez por isso, seja também um lembrete subtil de que o que vale a pena precisa de cuidado e atenção.

Por tudo isto – e por aquilo que nem sabemos explicar mas sentimos ao primeiro trago – hoje escrevo este elogio. Ao café. Ao milagre simples de uma chávena que nos reconcilia com o dia. Que nunca nos falte.

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