quinta-feira, 17 de julho de 2025

A Sombra Humana


Desde as primeiras pinturas nas cavernas até aos bombardeamentos em tempo real nas redes sociais, o ser humano parece carregar dentro de si uma inclinação visceral para o conflito. Não apenas o conflito de ideias — esse é saudável, construtivo e necessário à evolução — mas o conflito que destrói, que humilha, que mata. Porquê? O que é que leva o Homo sapiens, com todo o seu neocórtex desenvolvido e discurso civilizado, a perpetuar guerras, a assassinar por ódio ou por ambição, a destruir o outro como se, no fundo, isso fosse um ato de autopreservação?

A resposta não é simples, mas encontra eco na psicologia profunda, nas dinâmicas de grupo, nas teorias do trauma e até na neurobiologia. Carl Jung falava da “sombra” — o lado inconsciente e reprimido da personalidade, onde residem os instintos mais primitivos. A sombra, se não for reconhecida, confrontada e integrada, projeta-se nos outros. E o que se projeta, combate-se. O inimigo, muitas vezes, não é mais do que o espelho de tudo o que não suportamos ver em nós mesmos.

No fundo, odiamos no outro aquilo que não conseguimos aceitar em nós.

A guerra — seja ela entre países, famílias, ou dentro de uma casa — serve muitas vezes como palco onde o indivíduo liberta os seus demónios internos. A psicologia evolutiva sugere que, em tempos antigos, a violência era uma ferramenta de sobrevivência: proteger o clã, garantir recursos, marcar território. Mas se os tempos mudaram, o cérebro primitivo mantém-se, e com ele o sistema límbico preparado para reagir em modo de ataque ou fuga. A raiva, o ódio, o medo… são atalhos emocionais, mais rápidos que o pensamento racional. E onde o medo reina, a empatia morre.

A teoria da despersonalização do inimigo também é relevante. Em contexto de guerra ou violência social, o outro deixa de ser humano. Passa a ser “o terrorista”, “o porco capitalista”, “o comunista nojento”, “a vadia”, “o monstro”. Esta desumanização é uma estratégia inconsciente para permitir que o indivíduo viole os seus próprios princípios morais sem culpa. Não matamos pessoas — matamos coisas que aprendemos a odiar.

Além disso, existe uma dimensão coletiva e quase ritualista da guerra. René Girard falava do “bode expiatório” — a ideia de que as sociedades, quando sobrecarregadas de tensão, escolhem um elemento a sacrificar para restaurar a ordem. Esse “bode” pode ser um grupo étnico, um género, uma religião ou até uma criança na escola. O importante é que o sofrimento de todos seja canalizado para alguém. E depois da catarse, reinicia-se o ciclo.

A isto soma-se a psicologia do poder. O desejo de dominar, controlar, subjugar não nasce apenas da ganância. Muitas vezes nasce da insegurança. Do medo de ser irrelevante. Da ausência de identidade. Há líderes que fazem guerras para não se sentirem vazios. E há homens que matam porque nunca foram olhados com ternura. A dor reprimida, a vergonha internalizada, a raiva herdada tornam-se combustível. A violência torna-se linguagem. E matar, paradoxalmente, torna-se forma de existir.

Mas é importante dizer: a tendência para o conflito não é sinónimo de maldade intrínseca. A psicologia mostra que grande parte da agressividade humana é aprendida, modelada por contextos sociais e reforçada por traumas. Um menino que cresce num ambiente violento aprende que a força impõe respeito. Uma mulher que viveu sob opressão pode repetir a violência na forma de silêncio cúmplice. Os seres humanos não nascem monstros. Mas se forem feridos o suficiente — e se nunca forem amados — podem tornar-se.

A pergunta não é, então, “porque é que as pessoas fazem guerras?”, mas “porque é que não estamos a educar emocionalmente os nossos filhos para não as precisarem?”.

Estamos a criar génios para a tecnologia, mas analfabetos emocionais. Treinamos a mente, mas abandonamos a alma. E quando a alma é ignorada, ela grita. Às vezes grita com bombas. Outras com facas. Outras ainda com palavras que matam mais devagar.

A paz não é ausência de conflito. É presença de consciência. A paz começa quando deixamos de ver o outro como ameaça, e passamos a vê-lo como um espelho. E isso — infelizmente — continua a ser o maior dos desafios humanos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"

Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explo...