O Especialista de Pequenos Poderes é aquele ser humano que acorda de manhã, olha-se ao espelho e pensa: “Hoje vou mudar o mundo… um papel de cada vez.” Não tem ministério, não tem assessores, mas tem algo muito mais temido: um balcão e um carimbo.
Dona Palmira, por exemplo, é a rainha da secretaria da Junta de Freguesia. O cargo oficial? Assistente técnica. Mas, na prática, é Ministra dos Assuntos Internos e Externos, Guardiã do Arquivo Morto e Alta-Comissária dos Carimbos.
— Preciso de uma declaração de residência.
— Vai ter de preencher este formulário, trazer cópia do cartão, do passaporte, do boletim de vacinas e um comprovativo de que não tem dívidas ao talho.
Quando perguntamos porquê, Palmira sorri com aquele ar maternal que antecede a sentença:
— São as regras… (tradução: “Eu decido e não tenho de justificar nada.”)
Depois temos o senhor Amílcar, funcionário da bilheteira municipal, que controla o acesso ao ginásio como se fosse a entrada da NASA.
— Bom dia, queria só renovar a mensalidade.
— Ah, mas o seu atestado médico expirou ontem. Vai ter de fazer outro.
— Mas é só um dia…
— Só um dia?! Isso é o suficiente para o seu coração rebentar na passadeira e eu ter de fazer o relatório.
E não nos podemos esquecer do mais temido de todos: o Presidente da Assembleia de Condomínio. Senhor Aníbal, reformado há 15 anos, mas com uma energia militar para decidir quem pode ou não colocar vasos na varanda.
— A vizinha do 3.º esquerdo tem flores fora do regulamento!
— Mas são só dois vasos…
— DOIS VASOS HOJE, UMA ESTUFA TROPICAL AMANHÃ!
O padrão é sempre o mesmo: quanto mais pequeno o poder, maior o ego. Quanto mais simples a tarefa, mais obstáculos surgem. É uma espécie de lei natural, como a gravidade ou o preço do café.
O pior? É que estes pequenos poderes são altamente contagiosos. Dê a uma pessoa um crachá, uma chave ou um carimbo… e veja a transformação. Em poucos dias, começa a falar com frases como:
— “Isso não é comigo.”
— “Vai ter de falar com a minha colega.”
— “Precisa de preencher o formulário… em triplicado.”
No fim, o Especialista de Pequenos Poderes vive para nos lembrar que a vida não é feita apenas de grandes decisões políticas ou revoluções históricas. Não. A verdadeira batalha é aquela que se trava todos os dias… no balcão da repartição, na portaria do ginásio ou na fila para a senha 237, quando a máquina só vai no número 41.
No fundo, o Especialista de Pequenos Poderes é como um capítulo inevitável da vida: todos vamos cruzar-nos com um, todos vamos praguejar por causa dele… e, se não tivermos cuidado, todos podemos acabar a ser um. Porque basta um balcão, um crachá e um “são as regras” para transformar qualquer mortal num tirano em ponto pequeno.
E a verdade é esta: os grandes tiranos mudam a História. Os pequenos tiranos mudam o seu dia — e, por vezes, arruínam-no com um simples “volte amanhã”.

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