Em Portugal, a capacidade de desenrascar é quase um património imaterial. É-nos passada de geração em geração, como se fosse uma qualidade admirável, um traço identitário tão nosso como o bacalhau ou o fado. Crescemos a ouvir histórias de como o tio conseguiu arranjar o carro com um arame e um pedaço de borracha, de como a vizinha resolveu um problema grave de canalização com fita-cola, ou de como o amigo do amigo safou uma situação complicada “à sua maneira”. E, de facto, é inegável que temos uma criatividade inata para improvisar. Mas por trás dessa habilidade quase poética, esconde-se uma verdade que raramente gostamos de admitir: o desenrasca é, muitas vezes, a desculpa perfeita para não planear, não prevenir e não fazer como deve ser. É o disfarce elegante da nossa falta de organização.
Vivemos num país onde o “depois logo se vê” é mais do que uma expressão; é uma filosofia de vida. As obras começam sem um plano definido e prolongam-se indefinidamente até alguém se lembrar de acabar. As empresas funcionam sem estratégia de longo prazo, confiando que, quando surgir um problema, haverá sempre um primo, um cunhado ou um conhecido que “percebe do assunto” e dará um jeito. No setor público, quando falta material, a solução mais natural é pedir ao utente para “trazer de casa, se puder”. Nas escolas, improvisa-se quando os recursos falham; na saúde, remenda-se o que já devia ter sido substituído há anos; e no dia a dia, confiamos no improviso para tudo, desde arranjar um almoço em cima da hora até resolver questões sérias de trabalho.
O problema é que esta cultura de improviso constante nos mantém num ciclo de atraso crónico. Enquanto outros países investem tempo a planear e prever cenários, nós gastamos energia a apagar incêndios — alguns reais, outros metafóricos. É claro que somos resistentes e criativos, mas vivemos constantemente a reagir em vez de agir. E, quando se vive sempre em modo de emergência, não há espaço para crescer de forma estruturada. Pior: acabamos por normalizar o caos e até sentir um certo orgulho nele, como se viver no improviso fosse prova de esperteza e não um sintoma de desorganização.
É preciso entender que o desenrasca não é um superpoder, é um hábito que nos impede de evoluir. Não significa que devamos perder a capacidade de improvisar — essa é, sem dúvida, uma competência valiosa. Mas improvisar deveria ser a exceção, não a regra. O verdadeiro progresso vem do planeamento, da prevenção e da preparação, coisas que ainda associamos a formalidade excessiva ou a “falta de jeito português”. Talvez esteja na hora de percebermos que planear não mata a criatividade; pelo contrário, dá-lhe espaço para existir sem depender do pânico do último minuto. Até lá, continuaremos a viver no país do “depois logo se vê” — sempre a inventar soluções brilhantes, mas sempre a chegar atrasados.

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