quinta-feira, 10 de julho de 2025

Amor com fim de utilidade...

Vivemos numa era em que tudo se exige e pouco se agradece. Em nome da correria do dia-a-dia, da pressão do trabalho e das exigências da parentalidade moderna, muitos filhos esqueceram-se de ser… filhos. Esqueceram-se de olhar para os pais como seres humanos com história, com cansaço, com limites e, acima de tudo, com sentimentos.

Hoje em dia, muitos avós deixaram de ser avós para se tornarem criados de luxo. São os babysitters disponíveis 24 horas por dia, os motoristas de serviço, os que cozinham, limpam, passam a ferro, levam, trazem, alimentam, dão banho, fazem o lanche para a escola e, ainda por cima, têm de o fazer com um sorriso nos lábios. Porque se ousarem dizer que estão cansados, que têm dores, ou simplesmente que precisam de tempo para si, são apelidados de egoístas, ingratos ou desactualizados.

E o mais doloroso nisto tudo não é o trabalho em si, é a falta de reconhecimento. É o “obrigado” que nunca chega. É o abraço que não se dá. É o olhar que não vê. É o filho ou filha que só liga para pedir, que só aparece para deixar os netos e desaparecer, como se os pais tivessem a obrigação inata de estarem sempre disponíveis, sempre prontos, sempre prontos a ceder o seu tempo, a sua saúde e até a sua dignidade.

Muitos destes pais, agora avós, já criaram os filhos. Já passaram noites sem dormir, já trabalharam sem folgas, já se sacrificaram para que nada faltasse em casa. Agora, na fase da vida em que deveriam colher alguma tranquilidade, são arrastados para uma nova maratona, muitas vezes sem escolha, sem voz, sem sequer serem consultados.

E o mais irónico? É que, por vezes, são ainda criticados. Porque não fazem como se espera. Porque dizem que estão cansados. Porque têm opinião. Porque não querem dar mais dinheiro. Porque ousam lembrar que também são gente.

Não é raro ver filhos a desvalorizarem os pais. A ridicularizarem a maneira como falam, como pensam, como vivem. A ignorarem o que sentem, como se fossem apenas peças de um tabuleiro familiar cuja única função é facilitar a vida dos outros. E quando a saúde começa a falhar, quando já não conseguem dar tanto, a paciência esgota-se — e com ela, desaparece o respeito.

A verdade é que muitos netos são mais amados pelos avós do que pelos próprios pais — e isso deveria ser motivo de reflexão. Porque há avós que se desdobram para que os netos tenham o que os filhos não conseguem ou não querem dar. E mesmo assim, continuam invisíveis.

Não se trata de dizer que os pais não devam ajudar. Trata-se de equilíbrio, de respeito, de gratidão. Trata-se de lembrar que os avós não são obrigados — e que o que fazem é por amor, não por dever. Que têm o direito de dizer não. Que têm o direito de viver. E que o mínimo que merecem é serem valorizados, não usados.

Há filhos que ainda não perceberam que, um dia, os pais deixam de estar. E nesse dia, não é o tempo que se vai lamentar — é a ausência do que nunca se disse. O “obrigado” que ficou por dar. O “gosto de ti” que foi engolido pelo orgulho. O reconhecimento que nunca chegou.

A vida é feita de ciclos. E um dia, muitos dos que hoje usam os pais como muletas emocionais e logísticas, vão perceber que criaram filhos com o mesmo padrão: o de usar, exigir, desvalorizar.

E talvez aí seja tarde demais para se arrepender.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Patrão: Vilão ou Reflexo da Nossa Mentalidade?"

Em muitas conversas de café, no almoço de família ou nas redes sociais, repete-se o mesmo refrão: o patrão é sempre o mau da fita. É o explo...